Arte na América Latina

Atualizado: 31 de out. de 2021

Como pensar e reposicionar a arte latino-americana a partir das identidades culturais contemporâneas?


"Mapa invertido da América do Sul", Torres Garcia. 1935.

Primeiramente, deve-se lembrar da América Latina como um território colonizado por duas grandes nações europeias, Espanha e Portugal. Estas, ao longo de quatrocentos anos, impuseram sua cultura à América Latina através de um processo de colonização tirano e cruel, que pôs fim às grandes civilizações andinas e ignorou a imensa riqueza cultural da grande população de povos originários do Brasil.

Além disso, acrescentaram-se às sociedades latino-americanas milhões de africanos trazidos pelo mercado escravagista. Tal fato se dá nas regiões mais tropicais americanas, que vão do Caribe ao Brasil. É neste cenário de diversidade étnica e sócio cultural que se dá o implante do padrão europeu de sociedade. Assim, como tudo mais, a história da arte na América Latina é inseparável da história da Europa, da qual tornou-se, de certa forma, dependente.

Pode-se citar, como exemplo de influência do padrão europeu, o caso de Antônio Francisco Lisboa, O Aleijadinho (1738 - 1814). Filho de um mestre de obras e arquiteto português e uma africana escravizada, brasileiro nascido em Minas Gerais, revelou-se um importante artista da arte Barroca e Rococó nas Américas. Tais estilos foram, genuinamente, reproduzidos por Aleijadinho, sem que jamais tenha ido à Europa ou frequentado escolas de arte.


"Cristo no Horto das Oliveiras", Aleijadinho, 1942.


Sendo a arte latino-americana, e logo também a arte brasileira, produto do desejo artístico das elites religiosas, econômicas e culturais nos diversos momentos históricos dessas nações, artistas sempre indagaram e responderam dentro dos paradigmas estéticos herdados dos colonizadores. Em razão deste ser o padrão cultural adotado e pelas elites latino-americanas, trata-se, então, da problemática citada pelo escritor Luiz Sérgio de Oliveira: “ser um artista latino-americano não é o bastante; é preciso ir além, é preciso atravessar fronteiras, ser internacional”.

A partir da independência colonialista das nações latino-americanas e a formação de suas repúblicas e o advento do movimento modernista que, mesmo tendo origem na Europa, traz em sua essência as rupturas com o conservadorismo na arte e na cultura. Assim, surgem os primeiros traços que darão início a uma identidade cultural e um reposicionamento da arte na América Latina. Artistas começam a se posicionar como autores e não mais como simples interpretes da estética colonizadora.

A dependência que era até então absoluta, passa a se tornar relativa ao ponto de o purismo de Tarsila do Amaral colocar o público europeu diante de uma linguagem que tanto lhe é familiar como totalmente desconhecida. (Dawn Ades, 1997). Assim também, Oscar Niemayer rompe com a rigidez retilínea do modernismo europeu na arquitetura, quando, inspirado pelas curvas das montanhas do Rio de Janeiro, cria as colunatas dos palácios de Brasília de as ondas da Pampulha.

Desde o início do século XXI, todavia, o questionamento sobre o que significa ser latino-americano vem se alterando. Em meio à uma era globalizada e de ascensão tecnológica, diluem-se fronteiras e encurtam-se distâncias. Mas, ainda assim, a circulação da arte latino-americana encontra-se limitada pelo sistema dominante. Um exemplo disso são exposições internacionais em que, ao representarem a América Latina, incluem apenas alguns países, ignorando a pluralidade e individualidade que há em cada um dos 20 países que a compõem.


"Éramos cinzas e agora somos Fogo", Maxwell Alexandre. Da série "Pardo é papel".

A fluidez do mundo líquido, referido por Zygmunt Bauman, oculta o sistema excludente que se reconfigurou. Perduram os estereótipos sobre a arte latina no mundo afora enquanto algo exótico ou folclórico, na tentativa de homogeneizar uma região multicultural. Aos países latinos, então, incorpora-se a função cotidiana de reescrever suas histórias através de um olhar horizontal. No Brasil, por exemplo, a artista visual Rosana Paulino aborda a investigação de temas antes pouco discutidos no cenário artístico brasileiro, como gênero, identidade e representação negra.


"Assentamento", Rosana Paulino, 2012.

Visto o empecilho para a autonomia da produção cultural latino-americana, dado o poder das elites conservadoras dominantes, buscam-se meios para a sua democratização e circulação. Portanto, ao compreender o contexto histórico em que os critérios e padrões artísticos foram estabelecidos, artistas reposicionam-se frente à produção contemporânea. Dessa forma, busca-se o deslocamento do movimento criativo de modo que este passe a se disseminar pelas margens, e não mais pelos centros.





Texto por Tainá Andery