A Terra Celebra o Sangue Menstrual

Atualizado: 31 de out. de 2021


A Terra Celebra o Sangue Menstrual. Sônia Mellone. Posca, nanquim e caneta a base de álcool sobre papel. 29,7 cm x 42 cm

Na obra “A Terra Celebra o Sangue Menstrual”, a artista sergipana Sônia Mellone tece uma rede de relações profundas entre mulher e natureza. A cada instante, fazem-se novos nascimentos, estações e rompimentos para a expansão do ser e estar no mundo. Frente a um sistema que domina e prega à mulher o engano de ter o corpo a preço de não sê-lo, Sônia cria representações figurativas onde mulheres-sementes, livres, habitam o mundo em comunhão.

A obra revela, também, um espaço afetivo no interior dos elementos: a água, em fluidez, se metamorfoseia a todo momento, ocupando um lugar entre a solidez da terra a leveza do ar. A terra, em contraste, representa permanência e resistência. O fogo, efemeridade e ação. Por fim, o ar, incapturável força que transita por todos os espaços. Viver é inerente ao questionamento do que se é, da origem primeira, mas, sobretudo, é inseparável da certeza de que se é. Há uma semente próxima a romper o solo, uma vez que,

um dia, um fruto esteve pronto para cair da árvore e, assim, mutuamente, o ciclo da vida se mantém.


"Entro lentamente na minha dádiva a mim mesma, esplendor dilacerado pelo cantar último que parece ser o primeiro. Entro lentamente na escritura assim como já entrei na pintura. É um mundo emaranhado de cipós, sílabas, madressilvas, cores e palavras - limiar de entrada de ancestral caverna que é o útero do mundo e dele vou nascer." (LISPECTOR, Clarice, 1973, p.7)


No primeiro plano da obra, três quadros acompanham a chuva cair sobre um pequeno broto que cresce para torna-se uma grande árvore. Partindo da bidimensionalidade, Mellone utiliza da caneta como meio de explorar tonalidades que se sobressaem à tela. Na exposição “Procurando a Anciã, me resgato e te Encontro”, corpos fugazes e indomáveis representam a compreensão do existir como parte de um ecossistema. Nunca estivemos tão distantes da intuição, da natureza, dos nossos ciclos e da própria sensibilidade. Observa-se, todavia, que na imagem algo se expande, mas expande-se pra dentro - uma contração. Solo adentro, raízes comunicam-se no silêncio e o sol se multiplica como esferas flutuantes. Desse modo, fora e dentro não se opõem, mas completam-se.


A obra faz parte da 1ª edição do Circuito Beneficente de Artes, realizado em 2021.

Texto por Tainá Andery