Amor ideal irreal

No século XVIII, ser admitido na Academia Real de Pintura e Escultura da França era um dos maiores reconhecimentos. A Academia impunha os critérios que deviam seguir as artes em geral. Para o caso da pintura, a norma eram os contornos desenhados com exatidão, a sobriedade nas cores, a temática clássica, a recriação de relatos da mitologia greco-romana.

O quadro ‘"A origem da escultura ou Pygmalion apaixonado por sua estátua", pintado em 1786, por Jean-Baptiste Regnault é um exemplo perfeito. Dois corpos perfeitamente desenhados desenvolvem a cena: um é de carne e osso e o outro de marfim. Pygmalion alguma coisa diz para sua estátua, a representação de uma mulher muito bonita e sensual que, apesar de permanecer ainda em cima de um pedestal, adota uma posição relaxada, atenta, talvez apaixonada. A estátua parece a ponto de soltar uma pomba. Algo vai acontecer.

Pygmalion era escultor na ilha de Chipre e a cena que se pintou no quadro pertence a uma história que começa uns anos antes.

As belas filhas do rei da ilha não respeitavam a deusa Afrodite e, para demonstrá-lo, decidiram prostituir-se; ou seja, viver o erotismo -substância da deusa - da maneira mais censurável possível. Para dar o mau passo, as princesas necessitaram perder a vergonha e endurecer suas emoções. E essa mudança espiritual se espelhou rapidamente em seus corpos e acabaram ficando feias: sua tez nunca mais enrubesceu, seu rosto ganhou em rigidez.

Pygmalion testemunhou a queda das moças e ficou tão impressionado que passou a detestar o atrevimento feminino e tomou a decisão de nunca mais ter trato com o gênero. Contudo, ato seguido, começou a esculpir em marfim a mulher de seus sonhos e tão perfeita foi sua obra que se apaixonou perdidamente por ela. Passou a acariciar e beijar a estátua, a comprar-lhe presentes caros; incluso construíu uma suntuosa cama para depositá-la.

Louco de amor, fez uma importante oferenda no altar de Afrodite e pediu para deusa que desse vida a sua garota de marfim. E nesse mesmo dia, ao chegar em casa, beijou a estátua como todos os dias, mas, dessa vez, sentiu que os lábios dela estavam mornos, que o marfim tinha virado carne.

Pouco depois, Pygmalion casou com sua mulher ideal e teve uma filha.