O manifesto Coringa

Atualizado: Mar 18

Coringa foi o filme proibido para menores que mais arrecadou na história do cinema. Os fãs da Marvel Comics gostaram e os cultores do cinema cabeça também. No entanto, ao contrário do que acontece com a maioria dos blockbusters, em Coringa há um claro manifesto político entremeado na ação. Tão claro que levou alguns críticos a temer que a sua exibição disparasse focos de violência.

De acordo com Todd Phillips, seu diretor, o filme relata a história de Arthur Fleck, “um rapaz que involuntariamente acaba convertido em símbolo”: ao assassinar, no metró, três jovens empregados da Wayne Investimentos, empresa do homem mais rico de Gotham City e candidato a prefeito numa iminente eleição, A partir do seu crime, Arthur desata uma rebelião dos de baixo que vão para as ruas quebrar tudo usando máscaras de palhaço.



Os paralelos do filme Coringa e a nossa realidade são instigantes. Os jovens que Arthur assassina no metrô parecem corretores de Wall Street bêbados após o happy hour. Wall Street, por sua parte, é a avenida de Nova Iorque onde residem poderosas instituições financeiras e é também cenário e motivo de outros filmes como Wall Street I e II, O Lobo de Wall Street ou Psicopata Americano, dentre outros. Na ficção, a prestigiosa avenida é o ninho do estelionato planetário, um refúgio de doentes mentais que visam unicamente a multiplicação do seu dinheiro por sobre qualquer outro valor.

Realidade e ficção se misturam e se incomodam, sempre que o cinema traz à baila esses bandidos das altas finanças. E não é à toa. Um sistema econômico como o atual, que promove a competência antes que o cooperativismo e que naturaliza tramoias (como essas perpetradas por juízes e imprensa diariamente) é o lugar ideal para que triunfem os psicopatas.



Faz tempo que em Gotham não se recolhe o lixo, os ratos invadem a rua, a juventude é violenta, os patrões são calculadores e cínicos, o Estado ausente (cortam o subsídio aos sete remédios que toma Arthur para manter o equilíbrio). Enquanto isso, por trás das grades da mansão Wayne, contudo, a paisagem é limpa como um protetor de tela Windows e o milionário, ainda, é dono da TV e manipula a realidade ao seu bel prazer.

O relato é contado de maneira tal que o espectador justifica o assassinato. Nesse mundo demasiado parecido com o nosso, Arthur têm razões de sobra para matar.


Após o assassinato, Wayne, perante as câmaras, lamenta a morte das jovens promessas e -como na nossa realidade- inocula ódio no público ao atiçar a divisão da sociedade entre vencedores e palhaços. Como resposta, a multidão vá para as ruas com máscaras que lembram Arthur e tocam fogo no centro de Gotham City. Os palhaços não querem o mundo onde só ganha Wayne.

O mix perfeito entre revolta, ficção e miséria da vida real que produz Coringa levou alguns críticos a ver o filme como um portador de uma mensagem perigosa, com capacidade para revoltar a galera. Mas tudo não passou de um arrepio burguês. O filme foi um sucesso e se alguém ganhou foram os acionistas da Warner, que parecem mais com os jovens assassinados no metrô que com os palhaços que assistimos.

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