O cristo hollywoodense de Dali

É possível ter uma prova da existência de Deus antes sem morrer? São João da Cruz, o homem que inspiraria o ‘Cristo de Dali’, sentia que sim. Ele, morto lá perto ano 1600, experimentava êxtases, formas de conexão com o divino, que depois volcava em poemas. Houve um dia, contudo, em que São João teve uma visão de Jesus e foi tão maravilhosa que preferiu expressá-la por meio de um desenho. Viu Cristo crucificado no jardim do convento, mas não desde baixo, como quando se via nos quadros ou no altar, senão desde cima.

Mais de três séculoa mais tarde, quando pintou ‘O Cristo de São João da Cruz’, Salvador Dali era um artista rico, famoso e midiático. Chocava com sua arrogância, surpreendia com suas extravagâncias, sua conduta produzia novidades com frequência poco comum para um artista da alta cultura.

Tinha saído da Espanha, nos, como surrealista; ou seja, como subversivo antieclesiático, antiburguês, comunista etc. Tinha desenvolvido uma carreira internacional de sucesso, com trabalhos até para Hollywoode e, agora, terminada a II Guerra, queria voltar a sua casa de Port Ligat, na província de Barcelona. Tinha um empecilho consoderável. O país estava governado por um sanguinário ditador do catolicismo de direita e, para retornar, precisava antes acretar algumas coisas.

Dali, disposto a tudo, disse que aceitaria tornar-se católico. E converteu-se e, como era Dalli, conseguiu uma audiência com o papa que saiu nas revistas do mundo inteiro. Seus velhos camaradas do surrealismo, expoulsaram-no do movimento por curvar-se ante um assasisino do povo.

O extravagante Dali, enquanto isso, não seria um praticante católico como qualquer outro. Passaria a ter visões como São João, viveria êxtases e inventaria um ‘misticismo atômico nuclear’ que misturaria Deus e a energia atômica em forma muito pouco séria.

Um dia chegou nas suas mãos um livro, com o desenho de San Juan e decidiu pintar sua versão da experiência divinal do santo. Reconciliado com o ditador, a paisagem que podemos ver embaixo de Cristo é a que se vê desde sua casa de Port Ligat. O corpo musculoso de Jesus foi fotografado num estudio da Warner em Los Angeles. Pertence a um homem de 33 anos, chamado Ross, que foi pendurado pelos braços e os pés e fotografado de cima para que Dali pudesse estudar depois os efeitos da gravidade sobre a musculatura dos crucificados.

Não se veem os pregos, nem a coroa de espinhos, não há rastros de sangue no corpo. Alguns críticos dizem que Dali quis pintar a pureza do ato do sacrifício de Jesus.

O quadro está na Escócia praticamente desde que foi pintado. Em 2005, foi escolhida como a pintura mais popular do país.


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