O cristo hollywoodense de Dali

Atualizado: 21 de ago. de 2021

É possível ter uma prova da existência de Deus antes de morrer? São João da Cruz, o homem que inspiraria o ‘Cristo de Dali’, sentia que sim. Ele, morto pelo 1600, experimentava êxtases, formas de conexão com o divino, que depois volcava em poemas. Um dia, contudo, teve uma visão tão maravilhosa de Jesus que precisou expressá-la num desenho. Viu Cristo crucificado no jardim do convento, mas não de baixo, como quando o via altar, senão de cima.

Quando pintou ‘O Cristo de São João da Cruz’, Salvador Dali era um artista rico e midiático. Chocava com sua arrogância, surpreendia com suas extravagâncias, sua conduta produzia novidades com frequência poco comum para um artista da alta cultura.

Tinha se exilado da Espanha, nos anos 30, como surrealista; ou seja, como subversivo antieclesiático, antiburguês, comunista etc. Tinha desenvolvido uma carreira internacional de sucesso, tinha trabalhado junto a Hitchcock, e agora, terminada a II Guerra, queria voltar a sua casa de Port Ligat, em Barcelona. Tinha, porém, um problema: o país estava governada por um ditador católico e sanguinário e, se queria retornar, Dali teria que dar mostras de arrependimento.

Disposto a tudo, o excêntrico pintor se converteu ao catolicismo e selou o compromisso num encontro com o Papa que seria publicado nos principais meios de Ocidente. Os velhos camaradas do surrealismo expoulsaram Dali do movimento por curvar-se ante um assasisino do povo. Enquanto isso, Salvador, que em tudo se destacava, não seria um praticante católico como qualquer outro: passaria a ter visões, viveria êxtases místicos e inventaria um ‘misticismo nuclear’ que misturaria Deus e a energia atômica em forma bastante pouco séria.

Um dia chegou nas suas mãos um livro, com o desenho de São João e decidiu pintar sua versão da experiência divinal do santo. Num estudio da Warner, em Los Angeles, um modelo de 33 anos foi pendurado pelos braços e os pés e fotografado de cima, para que Dali pudesse estudar os efeitos da gravidade sobre a musculatura dos crucificados. Assim, o corpo do Cristo de Dali seria o corpo sarado de um tal Ross. De resto, nada lembra uma verdadeira crucifixão, não se veem pregos, nem a coroa de espinhos, não há rastros de sangue, parece realmente a imagem de um ginasta. Embaixo do Cristo, podemos ver uma paisagem da cidade natal do pintor, Port Ligat, à qual, por fim, conseguira retornar.

O quadro está num museu da Escócia. Em 2005, foi escolhida como a pintura mais popular do país.