Futebolim

Atualizado: 14 de ago. de 2021

Aos cinco anos, Futebolim fez uma piada. Estava fazendo o dever de casa, na cozinha, teve vontade de ir no banheiro e disse: “Mãe, terminou o primeiro tempo, vou para o vestiário”. A mãe pipocou numa gargalhada e Futebolim saiu transportado por um turbilhão de gozo. Depois, a mãe passou algum tempo contando a ocorrência do filho entre as amigas e o menino pode sentir a glória na pele. Dedicaria o resto da vida a encontrar um modo de reviver esse já incível dia, ainda que, como todos bem sabemos, uma primeira vez nunca se repete.

Mesmo assim, tão potente resultou essa primária semente de vontade, que Futebolim, de imediato, rebatizou o mundo ao seu redor. Seu quarto passou a ser a concentração; seu pai, o presidente do clube; o almoço continuara sendo o almoço; a mãe era o diretor técnico e o avô, uma velha glória da instituição.

Quando deu o primeiro beijo, disse que sentia uma enorme satisfação pelo triunfo alcançado e -com os olhos fixos sobre o rosto estupefato da garota- prometeu continuar lutando para conquistar outros campeonatos para o clube. A primeira vez que foi castigado pelo amor, disse que não merecia o rebaixamento, que não ia se abalar e que continuaria com a cabeça levantada.

No dia do casamento, desde o altar, disse que era o gol mais importante de sua carreira e, quando o padre sentenciou o matrimônio, deu uma volta correndo ao redor da igreja, como se acabasse de ganhar uma taça. Claro que, com o passar do tempo, a rotina do casamento e um emprego monótono na secretaria de obras públicas, Futebolim pasasse a ver sua vida como trabalho da defesa.

Um dia, foi-lhe diagnosticado câncer. Futebolim explicou a quem quisesse escutar que estava fazendo as análises de pré-temporada. Quando a doença piorou, disse que tinha sido pego no antidoping e que esperava ansioso as contraprovas. Graças a Deus, empatou no finalzinho, após a morte acertar duas bolas na trave e conseguiu protelar o rebaixamento definitivo.

Aos amigos que foram visita-lo ao hospital, anunciou-lhes que se retirava dos gramados para seguir a carreira como dirigente.

A essa altura, Futebolim era um influencer de mais de 2M de seguidores e, assim que souberam que não morreria, os vampiros neoliberais voaram para cima dele e bancaram-lhe uma campanha para deputado num dos países de Bundanga. Assim, da noite para o dia, um Futebolim recuperado prometia acabar com a corrupção, vender as onerosas estrelas do time e formar uma esquadra jovem, mais barata, mas com amor pela camisa e pelo sacrifício.

O povo voutou nele sem pensâ-lo.

Tempo depois, no entanto, quando os vampiros terminaram de sugar o dinheiro da venda das estrelas para suas contas nas guaridas fiscais do Caribe e os campos de futebol ficaram enlameados e ganhar um mísero jogo ficou impossível, Futebolim ficou só e suas contas despencaram. Perdeu fama e dinheiro ao mesmo tempo, entrou então em profunda depressão e tomou uma caixa de ibuprofeno pensando que morreria.

Enquanto isso, o time era um caos. A dianteira chutava as bolas para nosso próprio gol e, toda vez que os pontas recebiam um passe em profundidade, davam dois passos e começavam a mancar. Era evidente que tinham sido comprados. A defesa e o goleiro, ainda fieis, trabalhavam o triplo, mas nada adiantava porque, por momentos, chegava-se a ter quatro bolas em jogo, na nossa área, e os juízes e o supremo VAR fingiam não ver o descalabro.

Futebolim, entretanto, abandonado pelos vampiros e pela massa, já com seu último alento, posteava nas redes como barata tonta, perdida no seu próprio reino de lixo. Pedia paciência, botava fé na próxima janela de transferências e nos garotos da oitava divisão. Fazia sempre referência a campos ensolarados e jurava que no próximo campeonato teríamos o time que nosso povo merecia.

Mas já ninguém prestava atenção.