Futebolim

Atualizado: Mar 21

Aos cinco anos, criou uma piada. Era a hora do dever de casa e disse: “Mãe, terminou o primeiro tempo, vou para o vestiário”. E foi no banheiro. A mãe pipocou numa gargalhada e passou depois algum tempo - que para Futebolim foi eterno - repetindo entre as amigas, risonha e orgulhosa, a ocorrência do filho. O menino sentiu a glória na pele, ficou feliz como nunca antes com a música do riso da mãe e decidiu dedicar o resto da vida a perseguir a sensação vivida nesse momento, ainda que, como todos bem sabemos, uma primeira vez nunca se repete.

Mesmo assim, tão potente resultou essa semente de vontade, que Futebolim, quase de imediato, começou a rebatizar o mundo ao seu redor. Seu quarto passou a ser a concentração; seu pai, o presidente do clube, o almoço continuara sendo o almoço; a mãe, o diretor técnico e o avô, uma velha glória da instituição.

E assim continou, podemos dizer, até agora. Quando deu o primeiro beijo, disse que sentia uma enorme satisfação pelo triunfo alcançado e, os olhos fixos sobre o rosto estupefato da garota, prometeu continuar lutando para trazer novos louros para o clube. A primeira vez que foi abandonado pelo amor, disse que não merecia o rebaixamento e que não ia se abalar e ia continuar com a cabeça levantada.

No dia do casamento, desde o alter, disse que era o gol mais importante de sua carreira e, quando o padre sentenciou o matrimônio, deu uma volta correndo ao redor da igreja, como se acabasse de ganhar um campeonato. Claro que, com o passar do tempo, a rotina do casamento e um emprego monótono na secretaria de obras públicas fizeram com que a vida de Futebolim se parecesse com o trabalho de uma boa defesa.

Um dia, foi-lhe diagnosticado câncer. Futebolim explicou a quem quisesse escutar que estava fazendo as análises de pré-temporada. Quando o negócio piorou, disse que tinha sido pego no antidoping e que esperava ansioso as contraprovas. Graças a Deus, conseguiu empatar, após a morte acertar duas bolas na trave e, com um gol no finalzinho, conseguiu protelar o rebaixamento definitivo. Aos amigos que foram visita-lo ao hospital, anunciou-lhes que se retirava dos gramados para seguir a carreira como dirigente.

A essa altura, Futebolim era um influencer de mais de 2M de seguidores e, assim que souberam que não morreria, os vampiros neoliberais voaram para cima dele. Eram os tempos em que esses chupa-sangue botavam ricos e famosos nos parlamentos do mundo para que votassem as leis que lhes permitiam saquear comodamente as nações do planeta, enquanto o povo dormia vendo nos parlamentos as mesmas cara adoráveis do You Tube.

Durante sua campanha para deputado, Futebolim disse que acabaria com a corrupção, que venderia as estrelas do time, que custavam mais do que rendiam, e que formaria um time jovem, aguerrido; pobre também, não negava, mas com amor pela camisa e pelo sacrifício. O povo voutou nele sem pensâ-lo.

Mas, tempo depois, quando os vampiros terminaram de sugar o dinheiro da venda das estrelas para suas contas nos refúgios fiscais do Caribe e os campos de futebol ficaram enlameados e ganhar um mísero jogo ficou impossível, os vampiros foram sugar outra nação e Futebolim ficou só e suas contas despencaram. Entrou então em profunda depressão, pensou em tomar uma dose letal de ibuprofeno.

O time, enquanto isso, era um caos. Nossa própria dianteira chutava as bolas para nosso gol e, toda vez que os pontas recebiam um passe em profundidade, davam dois passos e começavam a mancar. Era evidente que tinham sido comprados. A defesa e o goleiro, ainda fieis, trabalhavam o triplo, mas nada adiantava porque, por momentos, chegava-se a ter quatro bolas em jogo, na nossa área, e os juízes e o supremo VAR fingiam não ver o descalabro.

Futebolim, entretanto, abandonado, já com seu último alento, posteava nas redes como barata tonta, perdida no seu próprio reino de lixo. Pedia paciência, botava fé na próxima janela de transferências, nos garotos da oitava divisão. Jurava que no próximo campeonato entraríamos no campo com o time que nosso povo merecia.

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