Chef Jacquin, o preferido dos vampiros

Os vampiros dominavam as diretorias de todas as empresas do mundo. Por isso, todos os habitantes do planeta trabalhavam para os vampiros e, depois, gastavam o salário comprando a comida, o entretenimento e os medicamentos que eles mesmos vendiam.

Além disso, os vampiros tinham conseguido que, de tanto vibrar com o futebol, os pobres se convencessem de que a vida era uma competência generalizada entre indivíduos onde uns ganhavam e outros perdiam. E assim como os vampiros disputavam todos os anos os primeiros lugares da lista de ricos da Forbes, os assalariados das lanchonetes disputavam mês a mês o título de melhor empregado.

Num mundo de ganhadores e perdedores, como não podia ser de outra maneira, abundavam os meios de distinção, já que o distintivo era a maneira como o ganhador exibia seu triunfo. Carros, roupas, barbas e muitos outros símbolos serviam como atributos de quem se sentia ganhador, havia ‘marcas’ até para os mais castigados pela Economia.

A distinção, contudo, era um dos bens mais difíceis de lograr no mundo frequentado pelos vampiros. Como os vampiros podiam comprar qualquer coisa à disposição, só podiam se distinguir ante seus pares possuindo ou experimentando algo do qual só existisse um exemplar no mundo. Por isso, financiavam expedições arqueológicas ao Oriente Médio, atrás de moedas babilônicas ou dos ossos de Cristo, ou mandavam robôs a Marte, com a esperança de conseguir pelo menos um grão de areia que ninguém mais possuísse.

A experiência gastronomia era, sem dúvida, um campo onde a competência pela distinção entre vampiros corria à solta. Comer o que pouquíssimos comiam já era algo que os diferenciava de 98% da humanidade, comer o que nenhum outro vampiro jamais comera estava entre seus grandes triunfos.

O chef Jacquin foi o número para os vampiros durante mais de um ano. Conhecia muito bem suas debilidades e preparava-lhes pratos com trufas alba branca, de 800 salários-mínimos o quilo, ou com caviar iraniano, a 200 salários o grama. Suas sobremesas continham rarezas como o melão Yubari (200 salários a unidade) e a melancia Densuke (outro tanto).

Quando nada restou sobre a faz da terra que os vampiros não tivessem engolido, o chef Jacquin, que era um perfeito empreendedor egoísta, teve uma ideia que, desde um princípio, resultou maravilhosa: investir pesado na exploração da fossa das Marianas, o lugar mais profundo do oceano Pacífico. Ali com certeza haveria bichos inusitados para pratos jamais vistos.

Financiado por um vampiro que gostava de investir em laboratórios, Jacquin construiu a nave e, com seu fiel ajudante, começaram a descer periodicamente. Havia raras espécies de enguias, plâncton, krill, peixes com formas diamantinas, barrocas, surrealistas. O chef Jacquin imaginava essas formas sobre pratos de diversas cores e, enquanto isso, as redes laterais da nave sugavam e secavam os animais para lançá-los suavemente no depósito.

As expedições do chef Jacquin eram um sucesso e o vampiro patrocinador vivia sua época de esplendor. Não havia ninguém dentre os da classe que não morresse por estar num de seus jantares.

Um dia, quando atingiram pela primeira vez os 5.000 metros de profundidade, viram um exemplar que lembrava um macaquinho de cor branca. Manobraram para pescá-lo e, quando foram no depósito, notaram surpresos que o bicho respirava fora da água. E, mais estranho ainda, respirava ofegante, mas cada vez mais lento como se seu ritmo se normalizasse fora da água. Era isso possível? Mas logo depois começou a emitir sons e a esticar as mãos como se quisesse ser amistoso.

Como era a primeira vez que subiam com um exemplar vivo, decidiram esperar para matá-lo; talvez dois dias, só para ver se comia, se engordava. Na noite do segundo dia, quando o fiel ajudante de Jacquin foi decepar o macaquinho para usar o cérebro numa sopa, tomou um susto.

-Fala -foi e disse para o chef Jacquin-. Esse bicho fala. Não entendi o que quis dizer, mas era algo assim como por favor.

E, efetivamente, o macaquinho emitia sons diferenciados e notava-se uma combinação perfeita entre a fala e o movimento do corpo e dos músculos do rosto. Não se entendia absolutamente nada, mas era evidente que estava pedindo clemência.

Como Jacquin era uma luz para os negócios rapidamente viu que esse animal seria uma boa peça para a ciência. Quanto pagaria uma universidade por entender a fala desse animal? Contudo, como sua mente nunca se detinha quando começava a calcular como ganhar mais, chegou rapidamente à conclusão de que o melhor negócio era trair seu patrocinador cozinhando o macaco para algum outro vampiro vaidoso. E dito e feito.

Assim, Jacquin traiu seu antigo patrocinador, mas ninguém deu muita importância. A traição era mais uma arma na competência que permitia o progresso. O problema, como comprovara a junta de médicos que foi convocada logo depois do almoço, era que no fígado do macaquinho havia uma substância que provocava diarreias oceânicas que, segundo eles calculavam, durariam semanas.

Esse descuido marcou o final da sua carreira.

Dizem que ele e seu fiel ajudante embarcaram no submarino, dizem que atrás de um inédito peixe salvador que lhes desse uma segunda oportunidade, dizem, até hoje, que não voltaram a subir.