Kitty, a pequena vampira

Quando Kitty tinha dois anos, conseguia persuadir outras crianças -incluso um primo de seis- para que se desprendessem de seus tesouros. A criança acumulava uma enorme coleção de chocalhos, chupetas, brinquedos, ursinhos, bolas, livrinhos de contos, mantinhas... E não brincava, não usava essas ‘conquistas’, como ela as chamava. Em pouco tempo, seu quarto no foi suficiente para albergar tanto material e passaram a usar o quarto da vovozinha, que morreria pela alergia que lhe provocara a pelúcia, um ano depois.

Seus pais acharam estranho que a menina apenas lamentara a morte da avó, mas, para essa época, Kitty, do nada, tinha começado a escrever palavras e eles, estupefatos, mal conseguiam superar o encanto que lhes proporcionava o ser ao qual tinham dado vida -já pensavam na sua filha nesses termos, com essa distância- e que viam evolucionar constantemente com estonteantes novidades quase semanais.

Uma madrugada, o senhor Smith encontrou junto ao corpo dormido de Kitty, um caderno que nunca tinha visto. Estava escrito com símbolos que não comprendeu, que tomou por coreanos, mas depois encontrou uma longa lista de nomes de amiguinhos e objetos titulada “Conquistas” e entendeu que se tratava de um inventário.

Consultaram um profissional. O especialista disse que Kitty ‘sabia muito bem o que queria’ e que o uso de conceitos abstratos a sua curta idade era indício forte de nos encontrarmos diante de uma superdotada. Seu comportamento era, nem mais nem menos que a assimilação prematura das mensagens que o sistema envia aos adultos em geral. Era algo que acontecia com certa frequência, ainda que, devia ser sincero, era a primeira vez que ele via um caso de criança de menos de oito anos.

Na viagem de volta para casa, os pais não falaram. Kitty, que jamais se separava do caderno, foi sussurrando o inventário. Os pais pensavam. Tinham uma gênia dos negócios entre as mãos? Não deveriam aproveitar, ganhar um bolão e depois fugir para internar-se em uma economia rural, numa meseta tibetana ou numa ilha de pescadores, onde poderiam reeducar Kitty, de acordo com os velhos princípios do humanismo?

E aqui entra o Dr. Stone, amicíssimo da família, que Kitty aprendeu a chamar de tio. Ele, acaharam os pais, podia ajudá-los a aproveitar comercialmente o talento da criança. Não já. Esperariam o que for preciso.

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Quando Ketty fez seis anos, os odontólogos constataram que os caninos da menina tinham uma raiz 45% mais volumosa que o normal. Isso levou ao top a questão de se Ketty tinha nascido com genes vampiros. Vários acadêmicos caguetes das universidades dos karas sairam raudos a dizer que tudo era muito possível, que Kitty podia ser a primeira de uma geração viria para transformar o mundo numa grande competência a morte entre unidades econômicas individuais.

Ninguém imaginava nesses dias de euforia que esse desenvolvimento prematuri das tendências vampiras, que na vida adulta eram uma benção, desencadearia uma tragédia de proporções tebanas. O empreendedorismo de Kitty explodiria no seio da família Smith fazendo com todos desaparecessem: ela, os pais e o casal de avôs vivos.

Quando fez nove anos, convenceu esses avôs para que vendessem a casa e comprassem bitcoins. A operação foi um sucesso e a netinha pediu aos velhos que se aguentassem um ano num muquifo, comendo sopa, enquanto ela multiplicava o “resultado” do negócio por mil. Os avôs, ao ver que a netinha falava como um economista das telinhas, acharam engraçado e aceitaram encantados.

A menina mostrou um faro incrível para ler os mercados e multiplicou o pequeno tesouro dos bitcoins não por mil, mas por 10.000. Então, comprou uma mansão, com mordomo, jardineiro etc. Ocupou o quarto principal, escolheu a marca dos carros, comprou a roupa que quis, incluso um traje e um sapato formal de salto, e nem falou dos avôs, que continuaram morando na miséria.

Seus pais, fascinados com a nova vida, embriagados com o perfume da ascensão social instantânea, jamais contradiziam a filha, que vivia concentrada noite e dia nas operações financeiras que persegui através da tela do computador. Perguntavam-se, sem palavras, se já estaria na hora de propor à filha a retirada para um estilo de vida mais manso ou se ainda deviam esperar que acumulasse um pouco mais. Não imaginavam ainda que o principal objetivo da filha era chegar aos 16 anos e pleitear a emancipação.

Um dia, com treze, fez uma reunião e comunicou a seus pais que o Dr. Stone levava muito tempo trabalhando para ela. O doutor assentiu. Ato seguido, mostrou-lhes uns vídeos captados com câmeras ocultas na casa. Eram festas com amigos, onde eles consumiam drogas proibidas ou situações nas que, aproveitando a ausência do conjugue, eles cometiam adultério. Disse-lhes que ia se poupar de comentar sobre a luxúria e a infidelidade, mas que no dia que ela fizesse 16 anos, eles deveriam abandonar a casa e desaparecer para sempre da sua vida, se não queriam que as suas vidas se afundassem no escândalo.

O Dr. Stone, amicíssimo, assentiu mais uma vez.

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Com a ajuda de vampiros importantes, que achavam Kitty uma graça, montara um call service com 500.000 nigerianos submetidos a um processo de neutralização de sotaque, para atender reclamações de clientes do banco HSBC nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Austrália. A uma idade em que as meninas choravam pelos amores contrariados, ela dirigia com mão de ferro milhares de pessoas que lhe interessavam menos que milhares de insetos.

Uma semana antes de fazer os dezesseis anos, os avôs foram achados mortos no muquifo. Tuberculose. Ao saber, ela disse que já não lembrava deles.

Os pais, portanto, perderam toda esperança. Um dia antes da sua emancipação, injetaram-lhe morfina enquanto dormia, para que não sofresse, e depois enfiaram-lhe goelha abaixo uma cápsula de cianeto, que a mataria em questão de minutos. Para assegurar a operação, encheram-lhe a boca de alho e, no final, cravaram em seu coração uma estaca de carvalho e nada de sangue escorregou fora do seu corpo inerte. Ato seguido, mataram-se com um tiro não interessa em qual ordem. Deixaram um bilhete onde falavam em salvar o mundo da ambição destruidora do ser que eles mesmos engendraram etc.

O caso do Suicídio dos Smith, como foi rotulado na imprensa, comoveu à opinião pública. Os jornalistas caguetes dos vampiros asseguraram que os pais eram comunistas e que tinham obrado motivados pela inveja e o ressentimento. A massa os viu como hienas durante as horas em que a notícia despertou sua atenção.

O Citibank, que amava as pessoas, batizou a principal filial so estado de Maine com o nome Kitty Smith.

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