?


Gota d'água que escorres na vidraça,

não te vás.

Não vês que o meu destino é igual ao teu?

Conheceste o azul do infinito.

Foste nuvem e vagaste pelo céu.

Hoje és gota perdida, solitária

e o vidro em que te abrigas,

é frio, indiferente.

Tombarás esquecida para sempre.


(Foto: Yogendra Yoshi - Foto redimensionada)


Também vim das alturas de um ideal.

O Mundo - essa campânula gigante,

asfixia meu ser,

enquanto me apego às suas paredes escorregadias;

e descendo, descendo sempre mais,

antevejo a real realidade,

e, invejosa, tremo.


Quem sabe, gota d'água,

se da vidraça gélida de um quarto,

não cairás em um jardim?



(Maria da Conceição Ouro Reis)



(Foto: Clériston Martinelo)


?.

Este título me deixou intrigado, desde o momento que o vi no índice do livro "A Lagoa do Fauno", de Maria da Conceição Ouro Reis. E quando cheguei ao poema, não esperava encontrar um diálogo entre o eu lírico e uma gota d'água. Mas então, dentro desta pequena gota, o olhar da poetisa reflete naquela gota, e ela vê escorrer-se a própria vida.

E é essa conexão, da sua própria existência, com a gota que escorria, que a leva a pedir, quase melancolicamente, para que a gota não se vá. Da súplica ao fim da primeira estrofe e durante a segunda estrofe, Maria constrói um paralelo entre o ser nuvem e vagar no céu, para então desprender-se, uma em um milhão de gotas, que, como todas as outras, percorrerá uma breve jornada e terminará. Embora a autora tenha dissolvido de modo genial uma profunda questão existencial em uma simples gota, não é este o grande desfecho do poema. Ele está, como não estaria, na última interrogação, o último ponto, derradeiro símbolo, exatamente igual ao primeiro, encerrando perfeitamente o círculo.

Nos três últimos versos, agregados na terceira e última estrofe, aparentemente irrisórios perante a eloquência e extensão das duas anteriores, está a pergunta que concentra a questão exposta no título. É o ponto de toda a questão. A razão da inveja e do tremor que o eu lírico sente em relação a gota e ao próprio destino, ante a real realidade que ela antevê: A vida aflui por nossos corpos incessante, e se esvai, e tudo que podemos fazer é observar enquanto descemos, e descemos, sem saber para onde desliza nossa existência, dentro do infinito abismo das possibilidades.

Mas há o jardim... ela supõe: e se? Se dos frios limites da janela que enclausuraram a celeste gota, desenlace-se num vasto e ilimitado jardim. Do jardim, à terra, às raízes das plantas, à vida outra vez, um novo ciclo... e ainda, se você parar pra pensar, uma parte, mesmo que muito pequena, mas ainda assim uma parte daquela gota, retornará ao céu de onde veio, independente de onde caia. Se... o Se, é tudo que temos para esta questão. E essa é a questão.

E se não houver fim?


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Poema XXX