Bernini e Constanza

Em 1605, Lorenzo Bernini fez um desenho na frente do Papa Paulo V, o pontífice ficou admirado, eram um prodígio de apenas oito anos. O menino ajudava o pai, escultor, em seu estúdio, tinha revelado um talento inusual e sua fama acabava de entrar em palácio. Era o começo da uma carreira de uma potência criativa inusual que, nas décadas seguintes, tomaria conta das igrejas, palácios, pontes e praças de Roma para perdurar até hoje.

Aos vinte anos, adotado pela maior autoridade da época em matéria de arte, o cardeal Borghese, Bernini seria o escultor e arquiteto mais importante do papado. Tempo depois, receberia a tarefa de construir o baldaquino da Basílica de São Pedro, o que significava praticamente continuar um trabalho incompleto de Miguel Ângelo.

O jovem tinha seu próprio estúdio -com seu pai agora como ajudante-, não bebia e era disciplinado e pontual nas entregas. Sobravam talento e perseverança, que sempre foram os principais temperos do gênio. Mas há muito também de uma ameaçante arrogância todo-poderosa.

Constanza (Wikimedia Commons)


Acostumado a andar nos salões dos palácios de bispos e papas como por casa, Bernini se sentia intocável, invencível. Era tirânico com seus empregados e indiferente com o resto do mundo. (Existem registros da preocupação da mãe ao respeito).

E quando Constanza, esposa de um dos seus ajudantes, passou a ser objeto de seu desejo, iniciou um ardoroso romance sem dar a mínima para as consequências. E foi no enlevo de Eros que Bernini esculpiu o primeiro retrato de pessoa comum da história da cultura ocidental: Constanza, com a blusa desabotoada pela pressão da sensualidade e a boca aberta, expressiva.

O Rapto de Proserpina (Wikimedia Commons)


É o ápice da carreira de Lorenzo e, portanto, o início do declínio, pelo menos político, do grande gênio. Primeiro, comete um erro de cálculo estrutural e uma torre mal construída deve ser derrubada, com o conseguinte prejuízo. Depois, sobe ao trono um papa com menos disposição para aguentar suas insolências. E para terminar, irrompe na sua vida íntima a traição de Constanza com seu irmão e ajudante Luigi.

Lorenzo bate no irmão com uma barra de ferro com a intenção de matar e envia uns matões à casa de Constanza, que terminam deformando com suas navalhas o rosto que ele tinha eternizado na pedra. Como ainda tem suficiente poder para cometer atos monstruosos sem consequências, recebe como todo castigo uma multa que, ainda por cima, é comutada.

Bernini foi intenso no amor, intenso no ódio e, como podemos ver neste detalhe do Rapto de Proserpina, intenso na maneira de representar a carne e suas paixões.

Fonte do texto: Simon Schama. O Poder da Arte (BBC), 2006.

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