A ilusão faz..., de Ivan Costa

Tomo a liberdade para iniciar o texto desta semana diferente dos demais. O poema de hoje não tem título e faz parte do livro "140 caracteres", de Ivan Costa, que se propõe a fazer poesias curtas, mas profundas - como iremos ver, em quatro breves versos dados em duas simples estrofes:


A ilusão faz a gente aceitar

absurdos...


Como algo absurdamente

normal.


(Peço ao leitor que atente ao poema e observe o efeito ótico ao lado. Aproximar e afastar-se da tela olhando para o centro do círculo pode ajudar a criar a ilusão de movimento.)



Trouxe este simples exemplo de ilusão de ótica para que a profundidade nas entrelinhas do poema não passe desapercebida. A imagem acima fez com que se aceitasse o absurdo dela estar em movimento, muito embora seja uma imagem e você saiba que ela não pode se mover: você a vê em movimento. Pensemos, se uma simples imagem consegue alterar a percepção da realidade a ponto de, literalmente, pôr em movimento algo que nunca poderá se mover, quais efeitos poderiam ter as palavras, cores, formas, sons, ainda mais se forem postos juntos com a intenção de criar uma ilusão?

Desculpa lhe dizer, se um dia você pensou que sua cabeça era um lugar seguro e reservado, não é. O seu cérebro é uma máquina de receber, interpretar e emitir informação. Os fótons atingem sua retina, gerando um estímulo que seu cérebro interpreta em imagem e emite a informação do mundo a sua volta. Da mesma maneira quando ele recebe a informação de uma baixa em seu nível glicêmico, ele interpreta que é necessário subir o teor de glicemia e emite a informação: estou com fome. Ou seja, o seu cérebro é sugestionável por natureza. É como se ele estivesse "esperando" receber informação para interpretar, algo que sugira um fluxo de pensamento, uma imagem mental, uma ação ou reação de algo etc... Por falar nisso, certeza que suas ideias são suas mesmo?

Não deve ser mistério que peças publicitárias, logomarcas, slogans, o design dos produtos, enfim, o marketing e mídia, fora tantas outras coisas tão sutis que não passarei, pois o objetivo do texto não é elencar as ilusões. São muitas e dos mais diversificados objetivos a plantar em nossa mente. Uma delas é fazer que você pense que precisa de algo, mantendo um estado permanente de carência. Deixo por conta e risco de quem quiser investigar as ilusões que nos cercam e os absurdos normalizados que passam despercebidos em nossos pensamentos, costumes, palavras, ações, são muitos, e alguns absurdamente escancarados. Mas há também o outro lado deste panorama:

Uma música que te enche de energia, uma leitura que te inspira uma torrente de ideias, uma pintura que te traz a sensação de paz, um bom amigo que altera o curso de um dia ruim... o que a balança pende a um lado, pende ao outro. Além de estímulos externos, através de práticas como meditação, oração, ou qualquer momento que te leve a um estado de contemplação, podemos plantar nós mesmos, solitariamente, a semente de nossas convicções e objetivos. A mente é um terreno fértil, pronto pra florir qualquer semente que cair, e será semeado aquilo a que você der atenção. Mantenha-se ciente do seu entorno e de atenção às coisas boas. Sua consciência é a única guardiã contra o absurdo das ilusões.


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