Poema XXX

A tua voz ouvi.

Semi cerrei os olhos e...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Uma alameda florescente de verdura

e a estrada reta, sem contornos,

sem fim.

Nem pensar era preciso.

Apenas caminhar.

A abundância dos rios,

o excesso de frutos...

Uma única inquietude:

a ânsia de chegar.

E o som da tua voz

a apagar

todos os outros sons.

Eu a andar.

As lágrimas ardentes que verti

não eram sofrimento.

Corri.

O ar já me faltava.

Percebi

que não havia fim

naquela estrada

e não soube voltar


No final do livro A Lagoa do Fauno há uma sequência de poemas intitulados de Poema Zero a Poema XXXIX. Em todo o livro há uma interação entre o eu lírico e um "personagem ausente", que aparece como voz, ou vulto, ou guia, ou Fauno. Pode haver, talvez, uma narrativa oculta que conecte todos os poemas. Uma relação mística entre a moça, que da voz ao eu lírico, e o Fauno narrada ao longo de sessenta e sete poemas com desfecho na sequência de quarenta poemas numerados, encerrando com os dois últimos poemas: A Morte do Fauno e O Último Canto.

Dada a breve introdução, conseguimos imaginar a quem pertence a voz que ela ouviu. Diferente dos outros, este poema é muito direto. Como todos os outros do livro, bastante profundo apesar de sua simplicidade. Em suma: ela recebe um chamado, adentra um mundo maravilhoso e exuberante, infinito, do qual não consegue voltar. E o ponto de profundidade destes versos não está escondido em alguma metáfora, ou sob o significado desconhecido de uma palavra. Está nos três primeiros versos. Na reticência dos olhos semi cerrados à partir do chamado.

O que me faz voltar ao enredo envolvendo os poemas da Lagoa do Fauno (não que exista de fato, mas gosto de pensar que há). Ela fecha os olhos e... .... como se apenas esperasse e o novo mundo desabrochasse ao seu redor. Não há ação. Quase um adormecer... E vendo esse gesto, me pergunto se a "presença-ausente" que paira por todo o livro não seria a presença dela mesma, ausente da sua autoconsciência (consciência de que ela é a voz). E que essa presença, esse Fauno é uma "versão superior" dela mesma, que a guia por mundos maravilhosos, ricos e abastados (ou seja, ela mesma e as potências de sua vida). E ela obtém a última revelação com a morte do Fauno, descobre que o Fauno nunca existiu, sempre fora ela mesma. E o livro de poemas, no fim, conta a história de uma campanha do inconsciente, para revelar ao consciente todas suas potências e maravilhas através de seres, sensações e locais imaginários.

Você já se convidou a explorar a própria imensidão?


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