A cabeça de Caravaggio

Caravaggio conhece a Roma dos 1600 como poucos. Entra nos palácios dos cardeais e frequenta também os bares da lamacenta beira do rio Tibre, onde os meninos de rua trocam a esmola por um prato de comida, as prostitutas rendem contas a seu cafetão e os bêbados pobres são bem atendidos.

Na época, a Igreja vive sob o ataque dos protestantes, que mandam o povo procurar a verdade diretamente na Bíblia e não se deixar impressionar pela pompa de Roma. Isso era preocupante para a hierarquia católica, mas o papado confiava na sua produção artística: uma potente arma propagandística, em tempos em que a grande maioria da população era analfabeta.

Davi com a cabeça de Golias. Fonte: Wikipédia.


Em sua carreira a serviço da Igreja, Caravaggio andou sempre pela linha fina que separa o admirável do intolerável. Por um lado, o marcado contraste entre luz e sombra -essa nova sensação de realidade-, despertava a admiração de eclesiásticos interessados nas evolução das artes. Pelo outro, os boatos de que os modelos para as representações sagradas eram recrutados nos bares do Tibre, sacodia a indignação dos mais inclinados para as questões especificamente religiosas.

Quando encomendou a Caravaggio uma 'morte de Maria', a congregação dos Carmelitas esperava uma Virgem elevando-se aos céus numa apoteose, que era a forma costumeira de tratar o tema. Mas o quadro que recebeu era a representação de um velório: Maria pálida, morta na cama, os apóstolos e Magdalena sofrendo ao redor, nenhum sinal de esperança. Para colmo, dizia-se que a face e as mãos da Virgem do quadro eram as de uma prostituta que morrera afogada no Tibre e que Caravaggio tinha 'estudado' no necrotério.

O quadro foi devolvido.

A morte da Virgem. Fonte: Wikipédia.


Outro grave problema de Caravaggio era a falta de controle sobre sua agressividade. Foi denunciado várias vezes e a história de suas confussões ficou documentada nos arquivos da justiça de Roma. Foi preso por difamação, denunciado por ameaçar um imitador de seu estilo com “fritar seus ovos em óleo”, suspeito de atacar pelas costas um desafeto na escuridão e, por fim, em 1606, acusado de assassinar um poderoso cafetão.

Dessa vez, pusseram uma recompensa pela sua cabeça. Fugiu dos estados papais, seu talento e sua fama lhe permitiram aceder às elites de Nápoles e da ilha de Malta. Passaram-se um par de anos, continuaram os descontróis e as prissões. Um dia, chegou a notícia que mais esperava: um admirador da sua arte, sobrinho do papa, estava tramitando um perdão.

Caravaggio inicia o regresso a Roma, sem aguardar os resultados. Pelo caminho, é atacado pelos comparsas do cafetão que assassinou e é espancado até quase a morte. Durante sua recuperação pinta o quadro ‘Davi com a Cabeça de Golias’.

Evoca um assunto caro à Igreja Católica, o fraco vence o poderoso; é um testemunho do que Deus pode fazer pelos fieis. A pintura endereçada ao papa contém uma mensagem: a cabeça que representa Golias é a cabeça do pintor. Caravaggio, ao decapitar-se imbólicamente, declara vencida sua gigantesca arrogância e espera que o Pontífice o perdoe.

Pouco antes de chegar a Roma, num confusso acidente, Caravaggio perde o navio. Morreria pouco depois, sem saber se fora ou não perdoado.

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