Holoesgrafitos

Por Antônio da Cruz

Com uma linguagem própria, a obra de Cruz se caracteriza pela utilização de materiais industriais, com ênfase no aço, no primeiro momento tudo parece bruto, rude. Que se tornam mais maleáveis nas mãos do artista, que atenua o processo que envolve resistência, flexibilidade e domínio ao dar-lhes formas quando desenhados, cortados, lixados, polidos e patinados, resultando em formas abstratas ou figurativas. Assim, as chapas de aço fazem parte do processo criativo do artista, que ganham liberdade e movimento, domando e submetendo a forma desejada.

Apresentam não unicamente o resultado mais o processo gestual, o começo, o meio e o fim da ação do artista. É a própria constituição da obra, pois mostra o organismo vivo, pulsante, que se apresenta diante dos seus olhos, como testemunho de sua experiência de vida. Desta forma, a obra de Cruz imprime novos contornos artísticos sobre o lugar, gerando experiências estéticas entre artista e espectador. Integrando a arte na vida cotidiana, nos permitindo conhecer um pouco da vida e do sentimento da cidade com todos os seus ruídos.

Suas obras contam a sua visão de mundo, com uma carga de emoção e conhecimento, seu modo de ser, de viver, de conviver e de produzir é sua essência e sua coerência interior, que vai estruturando sua obra. Cruz busca com o seu trabalho com os metais explorar ao máximo a expressividade do aço: o brilho e a opacidade contida no próprio; a oxidação do aço; sua cor; e não ocultando as emendas das placas deixando aparente o processo construtivo do seu trabalho. Isso não destrói o caráter da matéria, mais adquire forma nova e nova essência.

A luz também se torna matéria nas suas obras, pois lhes dá cor, profundidade ao preencher um vazio, cria expressão e lhes conta uma história, em que sugere vibrações, tensões e sonhos. Seduz e glorifica uma paisagem, a inventa do nada, dá magia a um fundo, um encantamento. Desta maneira suas obras são impregnadas de significações, em que matéria e conteúdo se fundem. Suas obras têm sua marca, seus valores e seu sentido do viver. Para Cruz os sentimentos são forças propulsoras da sua concepção artística.

Tudo isso serve para nos indicar o processo de desenvolvimento de sua experiência, que se define por uma busca de maior liberdade no uso da matéria expressiva. A necessidade de uma nova linguagem artística, não importando se o fez consciente ou não, pois estamos diante de um artista criador. Cruz recomeça cada obra da sua própria experiência. Um equilíbrio sensível da descoberta feita aqui e agora, por meio da textura e das superposições delicadas do maçarico, para então atingir o nível de transfiguração em que o aço alça seu voo.

Fernanda Kolming

Pesquisadora e Curadora

Séries presentes na exposição:

Mundos (12 obras)

Lendas e Cantigas (3 obras)

01.png