Receita

Ao amigo Nigroh Horgin


Quando o galo vai ao fogo,

Os pés em estertor despedaço;

Não deixo nenhum vestígio

Do seu animal antigo;

O pescoço, também desfaço:

Semelhança alguma eu quero Com o animal que o mata.


Boiam apenas em calma

Aéreas pegadas douradas

Do voo breve já em calda.


E então assim saboreio

Meu crime mais que perfeito,

Tal se eu incorporasse

Suas manhãs em meu peito.



Hunald Alencar é conhecido por seus textos profundos e reflexivos, de alta filosofia, até complexos poderíamos dizer. Já esse poema, por outro lado, impressiona pela sua simplicidade. Quando o li pela primeira vez, de tão simples, não pude captar sua profundidade. Mas manteve-se martelando em minha cabeça:

- Tem algo mais nesse poema para além da canja de galinha.

E há. Quando li novamente, com mais calma, atento às entrelinhas, pude ver, entre os dois últimos versos uma ideia tão profunda e vasta quanto o próprio oceano. Velado nos 12 versos anteriores, onde ele prepara a dita "receita", está a ação surreal de incorporar as manhãs que o galo cantou, no próprio peito. E dai a questão, será que daquilo que comemos, absorvemos apenas suas proteínas, fibras etc.? O que há das experiências e das intenções por detrás daquilo que ingerimos que se mantém em nós? Pois ao trazer esse desfecho, Hunald afirma que incorporará as manhãs que o galo viveu (para o escritor, aparentemente, não há dúvidas), como se absorvesse além das proteínas, também as experiências e memórias daquele galo. Talvez Hunald, ao referir-se à receita, referia-se na realidade a uma receita mais primordial e fundamental, a receita da manutenção energética da natureza, onde nada se cria, nem se perde, se transforma, e assim a corrente vital se mantém fluindo ao longo das eras. E fico a pensar que esta receita energética não se resuma apenas aos alimentos e que, talvez, absorvamos algo além da harmonia de uma música, das cores de uma pintura ou das falas de um ator ao desfrutar das artes, talvez absorvamos algo sublime em cada coisa que acontece ao nosso redor, desde um bom dia que recebemos, a alguma palavra ou gesto que doa em nós. Talvez essa seja a receita para entender o que alimenta ou envenena a Alma:

O que ingerimos da vida ao nosso redor?



Ouroboros Arte: Yasmim Yamara


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