Os ajustes

Atualizado: Jul 7

Ajustar era uma boa palavra. Quando se ajustava um parafuso, a estrutura de qualquer coisa ficava mais firme; ajustar um vestido era deixá-lo em harmonia com o corpo que devia ornamentar; ajustar uma orquestra -nem se fale- era envolver todos os músicos num mesmo espírito... Claro que a palavra também tinha umas conotações incômodas como sapato ajustado ou como andar ajustado com o dinheiro.

Os vampiros gostavam das palavras com esse duplo jogo. Por isso, usavam ‘ajuste’ toda vez que impunham recortes que menosprezavam a vida dos trabalhadores. A palavra expressava, por um lado, menos pão na mesa, mas, por outro, permitia sonhar com que em algum lugar, técnicos desinteressados ajustavam os valores do sistema para aperfeiçoar a maquinária da produção na procura da prosperidade eterna para todos.

Claro que o que havia por trás de isso tudo -como não cansavam de repetir os críticos sensíveis- era a insaciável sede de dinheiro dos vampiros. Uma pulsão inexplicável que não havia deus que perdoasse.

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Às vezes, suas manobras eram tão ousadas que até os mais fieis servos governadores se negavam a assumi-las. Foi o caso do ajuste populacional perpetrado por Sassânias, na zona norte de Bunadanga. Dessa vez, os vampiros não queriam usar um vírus, queriam um extermínio localizado e a solução aprovada foi provocar uma superpopulação de chuskus, que viviam na cordilheira que dividia o Cone Sul.

Os chuskus eram animais astutos, capazes de enganar seres humanos e comê-los. Adoravam bebés. Eram capazes de entrar num prédio com mil apartamentos e ir diretamente ao local onde houvesse um bebé. Isaura -que é a heroína deste relato- acabava de ter seu primeiro filho e vivia com seu marido num prédio com mil apartamentos. E, dadas as circunstâncias, tinha medo de perder seus bebé. Além do mais, sabia que a culpa era de Sassânias e não dormia de tanto fantasiar com uma forma de mata-lo.

Os chuskus eram lobos, com complexão de javali e dentes de tigre. Inteligentes como um homem básico, podiam imitar vozes e adquirir diversas aparências; assim, distraiam as pessoas, deixando-as a mercê de seus ataques. As forças armadas do todos os países do Cone Sul tinham construído ao longo da cordilheira um cordão de segurança com soldados suficientemente espertos como para não se deixar enganar por um bicho e fazia dez anos que não se produzia um ataque.

Por isso, quando os vampiros começaram a fazer suas campanhas contra da matança dos chuskus, a maioria dos mandatários do Cone Sul ficaram se fazendo de bestas, já que ninguém queria passar à história como um exterminador de bebés. Mas Sassânias, rei de Bundanga, tinha nascido com inteligência negativa. Ele não só era burro, mas também extremamente proativo. E a ideia prendeu na sua mente e encheu os cordões de segurança com soldados improvisados que postavam fotos nas redes sociais fazendo cafuné nos chuskus e criando a sensação (falsa) de que era possível fazer amizade com essas feras e evitar assim que lhe enganassem e comessem seu filho.

Isso era ruim por duas razões. Por um lado, o povo via nas telas, dia e noite, a convivência pacífica entre soldados e chuskus, ficava enternecido e tornava-se vulnerável às enganações das bestas. Por outro, os animais, gênios da trampa, aproveitavam que os soldados agora não os matavam e reproduziam-se como coelhos.

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Foi por isso que Isaura prometeu matar Sassânias.

Na cidade, registravam-se as primeiras mortes por ataque de chuskus em anos. Apareciam fígados, tripas, corações, soltos nas ruas, todos os órgãos que as bestas jogavam fora. Apareciam as testemunhas de sempre, pessoas que juravam terem visto as vítimas conversando com estranhos, que não eram senão as estranhas configurações que assumiam os animais para enganar os humanos.

Sassânias, enquanto isso, negava que a causa dessas ‘poucas’ mortesfossem os chuskus e dizia que era possível não só fazer amizade, mas também aprender a língua desses bichos para fazer um acordo de paz definitivo e passar a explorar turisticamente seu território.

Quando Isaura encontrou o modo de matar Sassânias, já tinham morrido cem bebés. Eram corpos que os chuskus comiam por inteiro, em três bocados, sem deixar rastros. Por isso os caguetes jornalísticos podiam silenciar ou negar esses crimes, coisa que aumentava a raiva das mães.

Por sorte, como acontecia com os doentes de inteligência negativa, Sassânias era um relógio de costumes banais. Toda terça feira, fazia quarenta anos, almoçava guiso de fígado de camelo no mesmo restaurante. Envenenar seu prato não era difícil. Já tinha passado pela cabeça de todo o pessoal, desde a cozinha até os garçons. O problema era achar alguém que levasse a comida até a mesa de Sassânias, pois o desconfiado fazia com que o servente comesse sempre a metade da refeição. Por isso, quando apareceu Isaura disposta ao sacrifício foi elevada à categoria heroína romântica em poucos minutos, nas redes dos conspiradores, e ela sentiu que era possível morrer feliz ainda que com data e hora marcadas. E todos puderam ver ao vivo o momento em que Isaura entregou o prato ao rei, mas ninguém pode escutar o que ela disse:

“Está preparado com um ingrediente especial que só os reis têm direito a experimentar”, disse.

Sassânias olhou com desconfiança para ela e para o prato. Um par de vezes. Pensou. Ao final, pode mais a força da inteligência negativa e comeu tudo e morreu.

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