Ney, a garota da hora

Atualizado: 26 de ago. de 2021

Ney foi uma garota adorada pelo público mundial, durante a semana do Grande Alagamento do País dos Caras, que resultaria no translado compulsivo para o Sul de 70% dos trabalhadores. A garota saltou à fama na terça-feira -graças à sua destreza para passar fios de lã por olhos de agulhas-, quando já as águas cresciam e crescia o número de refugiados. O vídeo da Ney bombou de repente nas redes e dois dias mais tarde atingia picos de fama planetaria, com outro vídeo onde ensartava um cabelo numa agulha com as mãos nas costas.

Os vampiros previam que trabalhadores do Norte, educados desde a infância com imagens que pintavam um Sul sempre castigado pelo fracaso e a miséria, se resistiriam a ser expulsos. Precisavam contrarrestar essa sensação e tinham muito pouco tempo. Assim que inundaram as redes de maravilhas turísticas do Sul -usaram fotos da época em que as cataratas tinham água e as florestas árvores-, encheram-na de relatos que entrmeavam pobreza e felicidade e turbinaram toda figura ameríndia emergente. Na quinta-feira da semana do alagamento, Ney recebeu uma ligação do departamento dos parasitas comunicadores. Seus pais eram do Sul, apesar de ser nativa do País dos Caras, ela levava Bundanga na pele.

Na noite de quinta-feira, a garota era rica e protagonizava mais um relato do gênero "enriqueceu da noite para o dia", com que os vampiros neoliberais enganavam os trouxas que acreditavam que isso era produto das forças livres do capitalismo.

Autor: Jorge Barrios



No sábado, no estádio Arena Prime, perante um público que chegou a pagar milhões pelas poltronas da frente e perante bilhões de espectadores através das redes, enfiou pelo milímetro de abertura que lhe oferecia o olho de uma agulha de ouro que segurava com o polegar e o indicador da sua mão esquerda, as pernas traseiras de uma mosca que se sacodia à velocidade do som, no esforço por se livrar dos dedos da sua mão direita.

Na manhã desse sábado, Ney tinha instalado pais, irmãos, tios, primos e amigos no renomado Hotel Buena Vista. Foram de imediato assessorados por um personnal stylist e depois disso todos puderam dar vazão às suas manias de consumo reprimidas. Na vertigem da ascensão econômica instantânea, Ney estava a anos luz de imaginar que, nessa mesma tarde, enquanto ela ensartava as patas da mosca atingindo o topo da sua fama, nas altas esferas, os vampiros neoliberais tinham já lançado as ações que davam início ao fim do seu reinado.

À noite, ainda, longe dessas insondáveis razões, Ney foi passear sua nova luminosidade nos melhores espaços da noite. Viu como os serviçais se jogaram aos seus pés, viu os rapazes adorarem seu narcótico aroma. Procurou, e achou, um macho ao seu nível de notoriedade. Viveu uma acalorada tormenta de egos numa cama amaciada pelo prazer. Na manhã seguinte -quase nem dormiram- publicaram uma foto tomando café na cama.

Mas na noite desse sábado, enquanto Ney amava e se amava, os softwares da administração corporativa e os registros de migrações eram drasticamente manipulados, as forças armadas emitiam ordens de translado de caminhões e naves e os mais destacados cérebros da propaganda adaptavam o relato oficial a um novo conto de fadas no qual só os bons mereciam ficar no País dos Caras e lamentavelmente os perdedores deveriam ir embora. Já meio país era pântano e não havia espaço para muita discussão.

Autor: Gustavo Rosadas


Ao ver que os translados de cidadãos para o Sul se realizava com poucas ocorrências violentas, os vampiros mandaram os parasitas da comunicação se livrarem dos saltimbanquis mais fugazes. Assim que no domingo, cinco minutos depois de postar a foto do café da manhã na cama, Ney recebeu uma ligação do parasita da propaganda. Devia voltar para seu bairro e seu último relacionamento antes da fama. Quando desligou, viu o galã com que tinha deitado, a meio vestir, indo embora, correndo, sem nem dar um beijo de despedida. Ele também recebera ordens.

Como podiam saber os vampiros sobre ‘menino calado’, seu último namorado? Por que agora tinha que cair subitmente das alturas ue tinha atingido com seu talento? Ney conheceu o 'menino calado' uma semana antes de saber que se filmar ensartando agulhas faria dela uma celebridade instantânea. Foram dois encontros em bares e três transas esquecíveis.

Na quarta-feira, ela deixou de responder suas mensagens. Tinha milhares de novos admiradores perguntando sobre sua técnica e sobre sua vida. Não ia dar o paso a fama com o 'menino calado'. Além disso, passou a viver muito ocupada, praticava horas ensartando desde palha até crina de jegue. No sábado de manhã, o 'menino', escondido, viu a mudança da família inteira, rumo ao Buena Vista e chorou. No domingo, quando viu a foto dela na cama com o animador, tentou o suicídio, mas falhou na primeira e foi interrompido na segunda por uma chamada de Ney que propunha nada menos do que reatar a relação.

Ao meio dia, o menino calado estava no Buena Vista e seu amor da vida lhe ensinava a mexer nos controles remotos do conforto de última geração.

Enquanto isso, os focos de rebelião cresciam, os grêmios de trabalhadores se atrincheiravam nos bairros e os vampiros mandavam o exército exterminá-los.

Nessa mesma tarde, Ney se casou com o menino calado, pagou as contas e, como tinham se retirado os patrocinadores devido à crise, voltou para o antigo bairro. Passou a beber aguardente e a xingar por qualquer razão. Teve oito filhos, engordou, ficou artrítica, incapaz de enfiar uma chave numa fechadura.

O menino calado lhe deu sempre a razão e, como nunca esperava nada da vida, foi feliz para sempre.

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