Ney, a garota da hora

Atualizado: Abr 29

Ney foi uma garota mimada pelos karas, na semana do Grande Alagamento do Norte, que resultaria no translado compulsivo para o Sul de 70% dos trabalhadores. Saltou à fama na terça -graças à sua destreza para passar fios de costurar por olhos de agulhas-, quando já ninguém ignorava que as águas cresciam e que crescia o número de refugiados. O vídeo da Ney bombou e, na quinta, atingia fama mundial, ao ensartar um de seus próprios cabelos, com as mãos nas costas.

A essa altura, cientes de que as imagens que se difundiam sobre a região Sul falavam sempre de fracasso e miséria, os vampiros neoliberais esperavam que os trabalhadores, em especial a mão de obra qualificada, se resistissem à expulsão. Por isso, desde três dias antes de que Ney atingisse a fama -48 horas atrás-, o departamento dos parasitas comunicadores tinha entrado em alerta laranja.

A chegada de Ney aos Trend Topics, portanto, foi devidamente registrada e salvada e a garota foi marcada com a estrela das atenções especiais. Os parasitas achavam muito didático enriquecer raros talentos, diziam que isso gerava um tipo de relato que fazia com que os trouxas continuassem acreditando na magia do capitalismo. Ficar rico da noite para o dia, da lama à nata. Quem não queria? E casos como o de Ney demonstravam que isso era possível.

Autor: Jorge Barrios



No sábado, no Arena Prime, perante um público que chegou a pagar milhões pelas poucas poltronas presenciais permitidas pelas autoridades sanitárias, e perante bilhões de espectadores através da Rede, enfiou pelo milímetro de abertura que lhe oferecia o olho de uma agulha de ouro que segurava com o polegar e o indicador da sua mão esquerda, as pernas traseiras de uma mosca que se sacodia à velocidade do som, no esforço por se livrar dos dedos da mão direita de Ney.

Na manhã desse sábado, aconselhada por seu agente de propaganda, tinha instalado sua numerosa família e alguns amigos no renomado Hotel Buena Vista. O parasita sabia que essa galera daria vazão a umas quantas manias de consumo reprimidas e teria material suficiente para a produção dos seus obscenos espetáculos de ostentação. Um personal stylist deixou todo mundo bonito à par das instalações do Buena Vista -incluso os muito feios como tio Euclides e a prima Marta-, e uma marca de celular que passou a patrocinar a Ney, deu um aparelho de última geração para cada um.

Na vertigem da ascensão súbita, Ney estava a anos luz de imaginar que, nessa mesma tarde de sábado, enquanto ela ensartava as patas da mosca, nas altas esferas, os vampiros neoliberais tinham já lançado as ações que davam início ao seu reinado de cinco dias.

À noite, longe dessas insondáveis razões, Ney foi passear sua nova luminosidade nos melhores espaços da noite. Os serviçais se jogaram aos seus pés, os rapazes adoraram o narcótico de seu aroma. Procurou, e achou, um macho ao seu nível de notoriedade. Viveu uma acalorada tormenta de egos numa cama amaciada pelo prazer. Na manhã seguinte, quase nem dormiram, publicaram uma foto tomando café na cama.

Na noite de sábado, enquanto Ney amava e se amava, os softwares da administração corporativa e os registros de migrações eram drasticamente manipulados, as forças armadas emitiam ordens de translado de caminhões e naves de lá para lá e os mais destacados cérebros da propaganda adaptavam o relato oficial a um novo conto de fadas no qual só os bons mereciam ficar na terra dos karas. O pântano avançava, não havia espaço para muita discussão.

Os bons eram os mais úteis. Já não havia espaço nem motivo para as ascensões súbitas. Ficariam poucos, aqueles que se dedicassem às atividades essenciais, o sistema deixaria de apresentar-se aos olhos dos trouxas como uma roleta na qual qualquer um pode ganhar e, ironias do destino, passaria a mostrar-se como era: uma roca capaz de resistir imutável ao passo do tempo.

Autor: Gustavo Rosadas


As dissidências seriam tratadas com pau e tortura e não com a sedução da propaganda. Mesmo assim, os parasitas da comunicação acharam bom contar a história do regresso à lama de todos os famosos por talentos raros. Queriam que a mão de obra que ficasse no Norte tivesse a visão de alguém em pior condição para que nunca ninguém perdesse o respeito que se devia aos vampiros neoliberais.

Assim que no domingo, cinco minutos depois de postar a foto do café da manhã na cama, Ney teve uma reunião privada com seu agente de propaganda. Recebeu a ordem de reatar seu último relacionamento antes da fama, que era o ‘menino calado’. Quando Ney saiu do banheiro, onde tinha mantido a reunião, o galã, a meio vestir, ia embora, correndo, sem nem dar um beijo de despedida. Ele também recebera ordens.

O ‘menino calado’ era um rapaz do bairro que cria num deus severo, não num deus que premiava com besteiras terrenais como carros ou empregos, mas um deus que castiga com o fogo eterno. Ney se entremeou com ele porque pensou que seria idêntico ao seu pai, a quem nem conhecia. Conheceram-se uma semana antes de ela descobrir que era capaz de ensartar fios como ninguém. Foram dois encontros em bares e três transas esquecíveis.

Na quarta-feira, quando Ney deixou de responder, o menino calado, ciente do que acontecia com sua amada nas redes, e prevendo o abandono, rezou sobre milho até que viu aparecer o branco das rótulas. Ney, enquanto isso, praticava ensartando desde palha até crina de jegue. No sábado de manhã, escondido, viu a mudança da família inteira, rumo ao Buena Vista, pensou que nunca mais a veria e chorou até desidratar. No domingo, quando viu a foto dela na cama com o animador, tentou o suicídio, mas falhou na primeira e foi interrompido na segunda por uma chamada de Ney que propunha nada menos do que reatar a relação.

Agora era domingo ao meio dia e o menino calado estava no Buena Vista e seu amor da vida lhe ensinava a mexer nos controles remotos do conforto de última geração.

Enquanto isso, os focos de rebelião cresciam, os grêmios de trabalhadores se atrincheiravam nos bairros e os vampiros mandavam o exército exterminar os focos da insurreição. Havia mortos e feridos.

Nessa mesma tarde, Ney se casou com o menino calado, pagou as contas e, como tinham se retirado os patrocinadores devido à crise, voltou para o antigo bairro. Passou a beber aguardente desde de manhã, a xingar por qualquer razão, teve oito filhos, engordou, ficou artrítica, incapaz de enfiar uma chave numa fechadura.

O menino calado lhe deu sempre a razão e, como nunca esperava nada da vida, foi feliz para sempre.

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