Sergipanidade e Cultura Popular

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos


No último dia 24 de outubro, celebrou-se o Dia da Sergipanidade. Efeméride recente, mas que já é uma realidade festiva tanto quanto o celebrado 8 de julho. Vale dizer que ambas dizem respeito ao corte do cordão umbilical de Sergipe com a Bahia. Ou seja, em grande medida, do nascedouro de uma identidade, que foi construída historicamente, mas também ao nível das políticas públicas de Governo, por muito tempo deixando aquilo que também define o que é nosso e particular: a cultura popular.


Para Amâncio Cardoso: “O movimento de negação de ser baiano e a valorização do ser sergipano inicia-se na primeira metade do século XIX e perpassa o século XX. A partir de então, instituições, fatos cívicos, manifestações literárias e acadêmicas promoveram o sentimento e o sentido de distinção de "ser sergipano" (IFS, 23 de outubro de 2020)". E nesse movimento, destaco, notadamente o efeito didático da publicação da obra de Felisbelo Freire: História de Sergipe, 1891; a criação do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, em 1912; e a instalação da Academia Sergipana de Letras, em 1929. Entalecendo assim a base de uma Sergipanidade de academia, importante, sem sombra de dúvidas, que ganhará novos rumos nas décadas seguintes.


Sem desconsiderar as outras iniciativas, penso que a contribuição de Luiz Antônio Barreto, de 2011, além de ser um divisor de águas, também o foi definidor para apontar novas questões para o século XX, ao preconizar o seu conceito como o conhecemos hoje: “(…) é o conjunto de traços típicos, a manifestação que distingue a identidade dos sergipanos, tornando-o diferente dos demais brasileiros, embora preservando as raízes da história comum. A SERGIPANIDADE inspira condutas e renova compromissos, na representação simbólica da relação dos sergipanos com a terra, e especialmente com a cultura, e tudo o que ela representa como mostruário da experiência e da sensibilidade”


Entregue em março de 2018, o Largo da Gente Sergipana, localizado à frente do Museu da Gente Sergipana Governador Marcelo Déda, está entre o que há de mais representativo dessa virada da Sergipanidade na última década, dando visibilidade, no sentido semântico e prático, às principais manifestações populares do Estado, a saber: Lambe-sujo e Caboclinho; Taieira; São Gonçalo; Bacamarteiro; Cacumbi; Chegança; Parafuso; Barco de Fogo e Reisado.

Foto: Márcio Garcez (Fonte)

Materializar o que há de mais sergipano entre aqueles que produzem uma cultura que não se encaixa na categoria erudita em monumentos, em local de destaque da capital sergipana (Avenida Ivo do Prado), além de ampliar e dá sentido à ideia de Sergipanidade, também mexeu nos brios de alguns sujeitos das chamadas elites culturais, provocando as mais variadas formas de reação, das indiferentes, passando pelas sínicas e desembocando nas animosas e preconceituosas.


Entre as barbaridades que eu, particularmente, ouvi e rebati à época, foi a repulsa ao mote inspirador de sua construção: orixás do Dique do Tororó, da cidade de Salvador-BA. A associação imediata foi à resistência às religiões de matrizes africanas. Questionou-se de tudo um pouco: do inconveniente temporário do fluxo de trânsito aos custos da obra. Em grande medida, estas últimas escondiam uma espécie de avaliação maldosa do tipo: “a cultura popular merece tanto?”. Ou ainda: “Isto é Sergipanidade ou a representa?”.


Em tempo, digam isso às inúmeras pessoas, sergipanas ou não, que orgulhosamente visitam o local e disseminam seus registros fotográficos em redes sociais. Façam o mesmo aos estudantes que têm, a céu aberto, uma aula de identidade e de pertencimento e que percebem e se percebem como sergipanos, sem necessariamente, e não que não haja merecimento nisso, ficar a bajular a memória de sujeitos letrados, alguns deles também notáveis senhores de viu metal.


Nesse sentido ou novo sentido dado à Sergipanidade e sua interface com a cultura popular a partir do Largo da Gente Sergipana, vale destacar uma passagem do trabalho de Tatiana Silva Sales (Mestrado em Antropologia - UFS), que diz: “Quem é a “gente sergipana” “homenageada” pelo Largo? Que elementos identificam a “gente sergipana” e a “sergipanidade” na construção? O que seria “sergipanidade” e porque o “folclore” é escolhido para “representá-la”? Qual é a concepção de “folclore” que tem espaço nesse contexto?” (2018, p. 40)


Antônio Alves do Amaral, então Presidente do Conselho Estadual de Cultura, assim se expressou sobre o Largo da Gente Sergipana da seguinte maneira: “(...) este é um monumento voltado para exaltação da nossa cultura popular, por meio da instalação de estátuas representativas de danças e folguedos, numa afirmação à Sergipanidade”. A ideia de uma afirmação como ressaltava Amaral à época não somente justifica essa interface entre Sergipanidade e cultura popular, mas sobretudo ao que Luiz Antônio dizia sobre esse sentimento que é o de ser “um conceito em construção”.


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