Afetos Sepulcrais



Desde criança eu costumava acompanhar os velórios da cidade onde cresci. Morando praticamente ao lado da delegacia e do cemitério, achava deselegante não cumprimentar os vizinhos, esporadicamente. Aprendi com minha avó materna e suas amigas da igreja, os cânticos que embalavam essa despedida, e enquanto os entoávamos, meus ouvidos dividiam a atenção com um outro "instrumento musical" : a pá, tocada pelo coveiro, seu Leobino, com quem logo fiz amizade. Ele achava graça quando perguntado sobre o medo dos mortos, e respondia com um sorriso tímido, de canto de boca, e um olhar de quem sabia quão assustadores são os "vivos"! Às vezes eu o acompanhava até a última nota (pá) de terra, carinhosamente, devolvendo aquele corpo ao chão, para servir de alimento a outros seres, depois partia para outras visitas, cemitério a dentro. Quanto mais velho fosse o morto, mais me agradava a visita! "Seu João, quanto tempo!" Deixava uma flor e uma ave maria cantada, e seguia... Talvez eu os assombrasse, porém desconheço quem não goste de ser lembrado, de ocupar um lugar no outro, ainda que seja desconfortável. O contrário do amor é a indiferença, disse alguém que já morreu! Sejamos gentis, pois estamos todos a caminho, indistintamente!


Lissandra Cruz

17 de agosto de 2021