A Luz


Texto por: Ninfador

Mudanças sempre fizeram parte da minha vida. Por causa do trabalho de gerente executivo, da minha mãe, sou obrigada a constantemente mudar de estado, de escola, de amigos; sou obrigada a mudar completamente de vida. Ao longo dos meus dezessete anos, já morei em dez estados diferentes, e estou partindo para o décimo primeiro: Sergipe.

Sergipe será o primeiro estado do nordeste no qual vou morar. O trabalho da minha mãe, nunca tinha nos levado para tão longe; longe entre aspas, pois para quem vive em constante mudança, nenhum lugar é tão longe.

Mesmo sabendo que a qualquer momento vou ter que deixar tudo que construí em um lugar para trás, acabo fazem amigos e me apegando a eles. As despedidas deveriam ficar mais fáceis com o passar do tempo, com a experiência e a certeza que sempre irão acontecer. Mas, nunca são fáceis; lágrimas e mais lágrimas, textões de despedida, abraços e mais abraços. É sempre a mesma coisa... A mesma tristeza... O mesmo sentimento ruim de perda.

Às vezes ouço minha mãe chorando, por conta disso. Ela deve se sentir bastante culpada, por fazer com que sua única filha, tenha que sempre abandonar tudo que construiu, por causa do seu emprego. Quando era mais nova, não entendia muito bem o motivo para tantas mudanças, entretanto, hoje em dia, já consigo entender. Alguém tem que trabalhar para sustentar a família; mesmo sendo apenas eu e minha mãe, as coisas nunca foram fáceis e ela sempre trabalhou muito para me dar tudo de melhor. Infelizmente, o trabalho dela, não nós permite criar vínculos e raízes em nenhum lugar. Mas é a vida... É a nossa vida.

A papelada da troca de escolas já foi feita. Para minha sorte, o período letivo da escola em que estudava, já tinha acabado quando a notícia da mudança chegou até nós. Foram poucas vezes que tive tal sorte; na maioria dos casos, sempre iniciava o ano letivo em uma escola e finalizava em outra. Isso é horrível para o aprendizado, pois as escolas nunca estavam na mesma sintonia, algumas estavam mais adiantadas e outras mais atrasadas, em relação aos assuntos estudados. E como estou indo para o terceiro ano do ensino médio, o último ano de escola, essa sorte veio no momento certo.

Todas as coisas relacionadas à mudança já estão prontas; móveis embrulhados, malas feitas, casa limpa, contas pagas. Estamos apenas esperando o caminhão que irá fazer a mudança chegar, para colocar tudo que temos nele, e partirmos mais uma vez. Nossa espera dura cerca de quinze minutos, até ouvirmos uma buzina vinda da rua.

Como tudo era pago pela empresa na qual minha mãe trabalhava, eles sempre mandavam o mesmo caminhão, com o mesmo motorista. O senhor Carlos, era um homem com seus 57 anos, branco, estatura baixa e com uma barriguinha de chope. Sempre de muito bom humor, ele sempre foi muito gentil conosco; dá para ver em seu olhar, que ele realmente ama o seu trabalho.

Minha mãe e eu, o ajudamos a colocar todas as coisas no caminhão. Assim como em todas às outras vezes, o caminhão saiu antes de nós; para não ter perigo de chegarmos à nova casa e as coisas ainda estarem a caminho. Após uma longa e última olhada no meu quarto, partirmos rumo ao hotel que ficaríamos até a manhã seguinte, quando finalmente seguiríamos rumo a Sergipe.

Tive uma boa noite de sono, pois a cama do hotel era bastante confortável. Tomamos banho e café no hotel; após o checkout, entramos no carro e partimos rumo ao nosso destino. Sergipe fica a dois dias de viagem do Rio Grande do Sul, então faremos mais duas paradas para dormir, em outros hotéis antes de chegarmos. As viagens com minha mãe sempre foram tranquilas; nós cantamos, conversamos sobre a vida, sobre o futuro, sobre garotos... Sempre pude ser cem por cento aberta e sincera com ela, e nossa relação, depois que entendi o quando ela se sacrificava e trabalha por mim, ficou muito boa.

Nossas duas paradas para dormir não foram tão satisfatórias, pois ficamos em motéis de beira de estrada, com camas desconfortáveis. Porém foram apenas duas noites, nada que estragasse a viagem. Assim como o previsto, dois dias após nossa partida, finalmente chegamos a Sergipe.

A nova casa, assim como o caminhão de mudanças, foi arranjada pela empresa na qual minha mãe trabalha. Ela era bem maior que a antiga, muita mais espaçosa e com mais cômodos. Tinha um belo e pequeno jardim logo na entrada, era pintada inteiramente de branco no seu exterior, com tons de azul claro no seu interior. Seu piso era de mármore branco; possuía quatro quartos e uma suíte, três banheiros, um escritório, uma área de lazer e uma piscina. Sim! Eu tinha uma piscina em casa! Saber que tínhamos uma piscina levantou um pouco mais o meu animo. Aquela casa é a melhor casa em que já moramos, com toda certeza do mundo.

Como o caminhão da mudança tinha saído um dia antes de nós, todas as nossas coisas já estavam desempacotadas e arrumadas. Não muito bem arrumadas, mas sei que o senhor Carlos fez o máximo que pode, para deixar tudo certinho para nós.

Minha mãe deixou escolher o quarto que mais me agradava, para ficar com ele. Logo que minha escolha foi feita, ela me ajudou a levar minhas coisas até ele e arrumá-lo. Assim como o resto do interior da casa, suas paredes eram pintadas em algum tom de azul claro, chão de mármore branco, tinha um ventilador de teto e uma janela com vista para a piscina.

Minha mãe ficou com a suíte, é claro; muito maior que os outros quarto, tinha um banheiro próprio com uma hidromassagem, um guarda-roupa bastante espaçoso e um mini escritório. Em vez de um ventilador de teto, que nem o meu quarto, tinha um ar-condicionado; que pelo o que ouvir falar sobre Sergipe, minha mãe iria utilizá-lo frequentemente. Saímos do Rio Grande do Sul para Sergipe, da geladeira para o forno; demoraríamos um tempo para nos acostumar com o clima.

Fomos dormir, com a promessa que no dia seguinte iriamos visitar minha nova escola. Minha primeira noite de sono, na nova casa, foi tranquila; sonhei com a nova escola, mesmo sem sequer conhecê-la, sonhei com um campo de flores e um lindo céu azul... Bons sonhos. Por causa dos sonhos, acordei feliz e animada para conhecer logo a nova escola. Após tomarmos café da manhã, partimos em direção a ela.

Minha nova escola não ficava longe de casa; uns dez minutos de caminhada. O que me deixou muito mais feliz, pois não precisaria pegar nenhum tipo de condução para chegar até ela. Era uma escola da rede particular, com três prédios. Para falar a verdade, um desses prédios parecia ser uma igreja vista de longe, com duas torres de sino. Sua arquitetura inteira lembrava uma igreja. Já os outros dois prédios, eram construções típicas de escolas, grandes caixas de tijolos e cimento.

Fomos muito bem recebidas pela diretora da escola, que nos levou para conhecer todas as instalações, de todos os três prédios. O primeiro prédio era onde ficavam as salas de aula. Elas eram bem normais, possuíam um quadro negro e um branco, cadeiras arrumadas em filas e uma mesa para o professor perto da porta de entrada.

O segundo prédio era o que mencionei que parecia uma igreja. E para minha surpresa, aquela construção era realmente uma igreja. A escola foi fundada por um padre jesuíta, por isso possuía uma local de cunho religioso. A diretora falou que não precisávamos nos preocupar, pois mesmo tendo uma igreja dentro da escola, eles respeitavam todas as formas e expressividades religiosas e que não iam obrigar ninguém a participar das missas. Ouvir isso me deixou bastante aliviada, pois ao contrário da minha mãe, eu não sou religiosa; acredito em Deus, entretanto não sigo nenhuma religião em especifico.

O terceiro e último prédio era uma quadra poliesportiva. Era o lugar onde aconteciam as aulas de educação física e os treinos dos times da escola: futsal, basquete, vôlei e handebol. Possuía sete fileiras de arquibancadas em cada lado da quadra, redes de proteção para os espectadores e um piso liso, com marcações para os esportes.

O tour pela escola foi bom para mim, pois assim pude conhecer as suas instalações e alguns professores, que mesmo sendo férias, estavam ali produzindo seus planos de aula para o ano letivo, que começaria em uma semana.

Voltei para casa mais animada do que tinha saído, bastante ansiosa para o começo das aulas. Embora a escola tenha uma igreja em seus domínios, não serei obrigada a participar de suas missas, e poderei usar esse tempo para estudar mais para o ENEM. É meu último ano de escola, o sonho da universidade federal é real para mim. Sei que sou muito privilegiada por sempre ter estudado em escolas particulares, porém não posso relaxar e devo continuar me preparando muito bem para o exame. Quero ser psicóloga; a mente humana sempre foi um grande mistério para mim e isso me deixa animada para saber mais sobre ela. Além do que, sendo psicóloga, poderei ajudar as pessoas a superar traumas e problemas. Acho que essa é minha missão nesse mundo... Ajudar as pessoas.

A semana que faltava para começo das aulas serviu para comprar os fardamentos, os materiais e livros exigidos pela escola, serviu para conhecer um pouco melhor a vizinhança e me acostumar com o clima do estado. Confesso que esse último ponto foi o mais difícil, por várias tardes da semana, apenas fiquei na piscina para amenizar o calor.

Quanto mais se aproximava o dia do início do ano letivo, mais ansiosa eu ficava. Mal consegui dormir direito no final de semana que antecedeu o início. O medo e a empolgação do novo eram os sentimentos que mais sentia. Na segunda-feira começaria mais um novo capítulo na história da minha vida; iria conhecer novas pessoas, novas histórias, fazer novas amizades... Mesmo sabendo que posso ter que me mudar a qualquer momento, não me privo de fazer amigos. Esse é um dos pontos positivos de ter vivido em vários estados, ter pessoas para visitar quando estiver de volta a eles.

A segunda-feira finalmente chegou.

Acordei bem mais cedo que o recomendado por minha mãe, a ansiedade estava me matando. Pela primeira vez vou estudar pela manhã; como o trabalho dela é período integral, manhã e tarde, terei a casa só para mim durante todas as tarde. Isso será ótimo para meus estudos, paz e tranquilidade. Não que ela seja barulhenta, mas silêncio para estudar, nunca é demais.

Como tinha acordado bem mais cedo, fiquei deitada na cama. Quando a hora certa para levantar chegou, minha mãe já tinha saída para o trabalho. Tomei banho e café, coloquei o uniforme da escola, dei aquela última conferida no material para ver se tudo estava correto e parti rumo a meu primeiro dia de aula.

A escola estava diferente da última vez que tinha a visto, não somente pelos balões e cartazes de “boas vindas”, mas também por está cheia e muito barulhenta. Crianças corriam por todos os lados, um alto-falante tocava músicas gospel, e no intervalo de cada música, uma voz dizia “Sejam Bem vindos a mais um ano letivo; a escola Lindo Saber, deseja a todos um ótimo dia”.

Segundo o que a diretora tinha me informado no dia do tour pela escola, era tradição deles celebrar uma missa antes do início de cada período letivo. E de fato eles fizeram; levaram todos os alunos, que queria participar da missa, para a igreja e ficaram lá dentro por mais ou menos meia hora. Enquanto os outros rezavam, eu fiquei sentada em um dos bancos do pátio esperando a missa acabar.

Após a missa, um inspetor levou cada uma das turmas para suas respectivas sala de aula. Minha sala era uma das quais eu visitei no tour, do mesmo jeito de antes, a única diferença eram os cartazes de “Sejam Bem vindos, Terceirão!”. Não fui a primeira a entrar, nem a última; por sorte consegui achar um lugarzinho para mim no fundo da sala, na última cadeira da última fileira.

Pelo jeito que as pessoas conversavam entre si, a única novata da turma sou eu. As brincadeiras e intimidades me diziam que aquelas pessoas estavam juntas há muito tempo. Alguns ficavam me olhando de maneira estranha, outros com um olhar de curiosidade, todavia nenhum deles veio até mim para me conhecer.

A aula começou e os ânimos se acalmaram. Para minha sorte não teve aquele momento constrangedor, onde levantamos e nos apresentamos; o professor entrou na sala, deu uns recados que a diretora tinha lhe pedido para passar para a classe e começou a sua aula. E assim foi o meu primeiro dia; estudos, estudos, estudos e mais estudos. Uma pausa de vinte minutos para o intervalo, e mais estudos. Cheguei bem cansada em casa, não esperava que o primeiro dia fosse tão puxado.

Nesse mesmo ritmo frenético de estudos, seguiu a primeira semana. Todos os alunos da minha turma eram bastante focados nos estudos, nunca tinha visto isso antes; nas turmas anteriores sempre havia dois ou três alunos que bagunçavam a aula inteira, mas aqui não. Todas as brincadeiras e conversas ficam para a hora do intervalo.

E foi num desses intervalos, durante a semana, que as primeiras pessoas vieram falar comigo. Um grupinho de meninas, cinco, para ser mais exata. Laura (longos cabelos castanhos e cacheados), Elizabeth (ruiva dos cabelos lisos), Vanessa (cabelos na altura do pescoço e bem pretos), Maria (irmã gêmea de Laura) e Cassandra (longos cabelos loiros de um lado e raspados do outro).

Elas me fizeram algumas perguntas: meu nome, minha idade, de onde eu vinha (pois tinha um sotaque diferente do delas), o que eu estava achando do estado, da escola, entre outras coisas. O “interrogatório” durou o intervalo inteiro; mas não me importei, pois também estava interessada em conhecê-las. Pela breve conversa que tivemos elas me parecem ser boas pessoas.

Aquelas cinco meninas foram a “minha porta de entrada” para a turma. A partir delas, nas semanas que se seguiram, eu pude conhecer o restante da classe. Todos tinham seus estilos próprios e características únicas, alguns cantavam, outros dançavam, pintavam, desenhavam, escreviam. Mas todos eram muito unidos e amigos. Um aluno em questão me chamou a atenção, Pedro.

Pedro era um rapaz de 17 anos, bem magro e alto; possuía cabelos lisos cortados na altura do pescoço e bem pretos, seus olhos eram da mesma cor do seu cabelo e bem pequenos, tinha grandes olheiras debaixo dos olhos, como se ele passasse várias noites em claro. Todavia o que mais me chamou a atenção nele é que, ou contrário dos outros garotos, ele não corria durante o intervalo ou participava das aulas de educação física; sempre ficava sentado no mesmo banco, no pátio, lendo HQs do Demolidor. Perguntei a Laura o porquê dele nunca participar das aulas ou interagir com a turma no intervalo; mas para minha surpresa Laura também não sabia o motivo, pois aquele garoto, assim como eu, era novato na turma.

Nossa... Eu fiquei tão impressionada com a turma e o jeito dela se comportar durante e fora das aulas, que nem percebi que mais alguém não fazia parte dela. Descobrir aquilo me deixou triste; talvez aquele rapaz fosse bastante tímido e só precisasse de um “empurrãozinho”, para começar a interagir com a turma e participar das aulas de educação física. Por isso, decidi que no intervalo do dia seguinte falaria com ele... Tentaria falar com ele, pois não posso obrigar ninguém a fazer aquilo que não queira.

E foi isso que eu fiz; no intervalo, em vez de eu ficar com as meninas, como sempre fazia, fui até o banco onde ele estava sentado para puxar conversa.

– O que você achou da série da Netflix? – fala apontando para o HQ do Demolidor, que ele estava lendo.

– Achei legal. Eles souberam adaptar muito bem o personagem, na minha opinião. – me respondeu o garoto.

– Legal... Eu também gostei. Principalmente a segunda temporada, por causa do Justiceiro. – falei mostrando para ele minha HQ do Justiceiro.

– É fã do Frank? Massa... Embora eu ache o personagem violento demais. – me falou rindo.

– Violento demais? Que isso, não é para tanto. Certo que às vezes ele exagera um pouco, mas toda violência é justificada. Faz sentido nas histórias dele. – falei defendendo o Justiceiro.

– Nisso você tem razão, devo concorda com você... Estudamos na mesma turma, mas não fomos apresentados formalmente. Eu sou Pedro, prazer. – me falou, fechando a HQ e me estendendo a mão.

– E eu sou Luiza, prazer em conhecê-lo. – respondo, apertando a mão dele.

E foi assim que começou a nossa amizade. Daquele dia em diante, passei todos os intervalos com ele, conversando sobre heróis, games, animes, séries, filmes, entre outros assuntos. Pelo meu ato de puxar conversa com ele, o Pedro começou a interagir mais com a turma; Apesar disso ele ainda continuava a não participar das aulas de educação física. Mesmo sendo próxima a ele, não sentia que possuíamos intimidade o suficiente para perguntar o motivo disso. Infelizmente, eu saberia do motivo da pior maneira possível.

Era uma sexta-feira normal, como qualquer outra. A aula começou e correu do mesmo jeito de sempre, tirando o fato de que o Pedro não estava na sala. Ele sempre foi bastante pontual, e não costumava se atrasar para a aula. Como ele estava demorando muito para chegar, fui procurar ele; por algum motivo sabia que tinha acontecido algo de ruim. Quando dou a volta num dos corredores que dava acesso aos banheiros, o encontro caído no chão se debatendo.

Ao ver aquela cena, entro em desespero. Nunca tinha visto acontecer algo do tipo, principalmente a alguém próximo a mim. Minha primeira reação foi tentar fazer com que ele parasse de se debater; agarro seus ombros com todas as minhas forças, mas meus esforços são em vão, ele continuava a se debater. Ao perceber que não iria poder ajuda-lo sozinha, corro em busca de ajuda. Para nossa sorte, minha e do Pedro, assim que desci as escadas, encontrei um inspetor. Contei a ele o que estava acontecendo com meu amigo e ele logo foi até seu encontro.

Ao contrário de mim, o inspetor parecia saber o que deveria fazer em situações como aquela. Ele não usou a força para tentar fazer o Pedro parar; ele apenas o colocou em seu colo, apanhando sua cabeça em seu peito e esperou os espasmos pararem. Tudo aquilo durou uns dois minutos, mas para mim, durou uma eternidade.

Passados os dois minutos, Pedro recobra a consciência. Ele não acordou assustado ou nada do tipo, parecia está bem acostumado com aquela situação. Todavia, sua fisionomia mudou quando percebeu que eu estava ali, com ele. Sua expressão facial, agora, era uma mistura de vergonha e medo.

Sem falar nada comigo, ele se levanta e tenta sair andando, mas é parado pelo inspetor que diz que o acompanharia até a enfermaria da escola. Estava preocupada com meu amigo, então fui com eles. Não me deixaram entrar na enfermaria, por isso tive que esperar do lado de fora da sala. Passaram-se vinte minutos, até ouvir a porta da enfermaria abrindo. Ainda sem olhar para mim, Pedro me pergunta se poderia acompanha-lo até sua casa. Respondo que sim; volto para a sala de aula para buscar minhas coisas, e o encontro na porta da escola.

Assim como eu, Pedro, também morava próximo à escola, só que um pouco mais distante. Durante todo o trajeto, ele não falou nada comigo, apenas ficou com a cabeça abaixada o caminho inteiro. Demoramos cerca de quarenta e cinco minutos para chegarmos a sua casa, que era bem grande, muito bonita e antiga. Parecia ser aquelas casas de época, que vemos em filmes, séries ou novelas. Inteiramente pintada de amarelo, possuía uma pequena escada de madeira que dava acesso à área de entrada da casa. Essa área era uma espécie de varanda, que era delimitada por um cercado, também de madeira, com quatro colunas de gesso que sustentavam o teto. A porta da casa também era de madeira maciça e aparentava sem bastante grossa e resistente.

Ajudo Pedro a subir a pequena escada e bato na porta por ele. No exato momento que minha mão encosta na madeira da porta, sinto uma presença estranha; como se algo ou alguma coisa de ruim me esperasse depois daquela porta. Mas penso que isso é somente coisa da minha cabeça, originada pelos acontecimentos daquele dia. Após algumas batidas, uma mulher alta, também de cabelos lisos e pretos, veio atender a porta. Ela ficou bastante surpresa por estarmos ali, naquele horário, em vez de estarmos na escola. Com uma feição de preocupada, ela nos deixou entrar. Quando coloco meus pés dentro da casa, a sensação da presença estranha fica bem mais forte. Busco não pensar nisso e apenas auxiliar Pedro a entrar.

Logo que entrou, Pedro passou reto pela mulher e subiu uma escada de madeira que dava acesso ao segundo andar da casa. Bastante confusa, a mulher olha para mim e pergunta:

– O que aconteceu com ele? Por que ele está em casa tão cedo?

– Eu o encontrei caído em um dos corredores da escola. Chamei um inspetor para ajuda-lo e ele o levou para enfermaria; lá, acharam melhor que ele voltasse para casa. Então o acompanhei até aqui. – respondi gentilmente, mesmo ainda sentindo a presença estranha.

– Nossa, ele deve ter tido outro ataque epilético. Os ataques voltaram a ficar mais frequentes depois que nos mudamos para esta casa. – me disse a mulher, com um semblante de preocupação.

– Ataque epilético? Então é isso que o Pedro tem? O motivo pelo qual ele não participa das aulas de educação física? – perguntei curiosa.

– Pedro sofre de epilepsia. Por esse motivo, achamos melhor que ele não participe de certas atividades da escola. – me respondeu a mulher.

– Ahhh, epilepsia... Entendo. – falo surpresa.

– Onde estão os meus modos. Eu sou Paula, mãe do Pedro. – me falou, enquanto estendia a mão para mim.

– Prazer em conhecê-la senhora Paula. Eu sou Luiza, amiga do seu filho. – respondi, apertando a mão dela.

– Então você é a famosa Luiza. Pedro me fala bastante de você. – falou Paula, com um grande sorriso no rosto.

– Famosa? Não sabia que ele falava tanto assim de mim. – respondo envergonhada.

– Você é a primeira amiga que meu filho fez em muitos anos. Depois que ele ficou ciente de sua doença, ele ficou bem mais reservado. Nunca quis criar vínculos com ninguém. – me disse Paula.

– Nossa, que triste. Acho que ele faz isso, apenas para não ser um peso na vida de ninguém; para que as pessoas não o tratem diferente ou não fiquem preocupadas o tempo todo com ele. – respondo pensativa.

– Deve ser por isso mesmo. – Concorda comigo sua mãe.

– Será que eu poderia falar com ele? Tentar pelo menos? – pergunto a ela.

– Claro. Ele deve está em seu quarto. Subindo as escadas, é a quarta porta a direita. Pode ir até lá sim. – me respondeu a mulher com um sorriso no rosto.

– Obrigado, senhora Paula. – falo sorrindo.

– Não precisa me agradecer e pare de me chamar de “senhora”. Só “Paula” já é o suficiente. – falou a mulher sorrindo.

– Tudo bem, Paula... Muito obrigado mais uma vez.

Após agradecer mais uma vez àquela mulher, subo as escadas em direção ao quarto do meu amigo. O que mais me incomoda nessa situação, é a sensação da presença estranha que me acompanha por toda casa. Ao chegar à porta do quarto dele, percebo que ele está lá dentro, pois posso ouvir o som da televisão ligada, bem baixinha. Resolvo não bater na porta, apenas falar:

– Sei que você está ai dentro. Sei também que você deve está com vergonha de mim, pude perceber isso através do seu jeito, depois que saiu da enfermaria. Você não precisa se envergonhar de nada. Sua mãe já me falou do que você sofre. Sei também que não deve ser uma boa hora para conversar, mas assim que se sentir a vontade para falar sobre esse assunto comigo, estarei disposta a te ouvir. Você tem o meu número, sabe onde me encontrar. Bom, é isso... Tchau, a gente se vê amanhã na escola.

Isso era tudo que eu podia fazer no momento, demonstrar que estou ao seu lado.

Desço as escadas, me despeço da senhora Paula, pego minhas coisas e vou embora da casa. Logo que ponho os pés fora da casa, a sensação que me perseguia incessantemente, dentro dela, some. Passo o caminho inteiro de volta a minha casa pensando tanto na doença do Pedro quanto na sensação que senti. Espero do fundo do meu coração que as duas coisas se resolvam logo; que o Pedro me deixe ajudá-lo com sua doença e que a sensação tenha sido apenas algo da minha cabeça.

Naquela mesma noite Pedro veio falar comigo. Foi uma conversa bastante sincera. Ele me contou todos os seus medos e inseguranças, me pediu desculpas por não ter me contado antes a real situação dele. Respondi que não havia motivo pelo qual ele deveria me pedir desculpas e que a partir daquele momento, estaria com ele em todas e quaisquer situações. Durante a conversa, esqueci que aquela promessa talvez não pudesse ser cumprida; esqueci que vivo em constantes mudanças, esqueci que não posso criar fortes laços com ninguém. Mal consegui dormir aquela noite; o medo de ser obrigada a me mudar mais uma vez, invadiu minha mente, levando o meu sono. Rezei para os céus, para quem estivesse me ouvindo, que o trabalho da minha mãe permitisse que eu ficasse ali, pois tinha encontrado alguém que precisa da minha ajuda.

Após todo esse acontecimento, nossa amizade ficou bem mais forte. Passamos a ficar mais tempo juntos, começamos a sair para nos divertir depois das aulas. Por ser de Sergipe, ele me levou para conhecer alguns lugares do estado; museus, pontos turísticos, praias. E em um dia, após um desses passeios, como estava muito tarde para voltar para minha casa, fui convidada, por sua mãe, a dormir na casa deles. Falei que não precisava, disse que ligaria para minha mãe e ela viria me buscar dentro de alguns minutos. Mas para minha surpresa a senhora Paula já tinha ligado e falado com minha mãe, dizendo que iria passar a noite com eles. Não era que estivesse com medo de dormir fora de casa, nada disso... Era apenas aquela casa deles, que me dava arrepios. Todas as vezes que estava na casa sentia algo estranho; mas não sabia o que era e nem queria acreditar que pudesse ser alguma força maior, algo sobrenatural; A única coisa que tinha certeza era de ser algo ruim.

Fiquei num quarto localizado nos fundos da casa, com uma janela que dava para um quintal bastante iluminado. Era um quarto simples, chão de madeira, paredes pintadas com um tom de vermelho claro, alguns quadros pendurados nas paredes, um guarda-roupa com um espelho em uma de suas portas. O que mais chamou minha atenção no quarto era o fato que ele tinha um banheiro dentro. Antes de dormir fui até o banheiro para lavar meu rosto. Assim que lavei o rosto, com a água ainda embaçando minha visão, olhei para o espelho do banheiro e vi algo estranho em seu reflexo. Foi muito rápido, cheguei até a pensar que era apenas a água no meu rosto. Então do nada a luz apagou... Movo-me em direção ao interruptor e acendo a luz novamente. Enxugo o rosto e vou para cama. Toda essa situação, só serviu para reforçar ainda mais o medo que tenho dessa casa. Aquilo que vi no reflexo do espelho pode ter sido apenas minha visão embaçada, mas também pode ser outra coisa. Mesmo a casa sendo antiga, a mãe do Pedro me garantiu que toda a parte elétrica é nova, então não tem motivo para a luz apagar, assim do nada.

Acordo no meio da noite e vejo o quarto totalmente escuro. Todas as luzes do quarto estavam apagadas, incluindo a do abajur. Não vinha luz nem do quintal... Acho tudo aquilo muito estranho e assustador... Cubro minha cabeça com o lençol e volto a dormir.

Na manhã seguinte, comento com meu amigo que tem algo estranho com a luz do banheiro dele, pois ela apagou do nada noite passada. Ao falar isso, sua mãe que escutava a nossa conversa, me olha com uma cara de assustada e me pergunta se tinha dormido bem; minto e digo que sim. Tomo café da manhã com eles e vou embora para minha casa, torcendo para que nunca mais precise dormir naquele lugar.

Passo o final de semana inteiro pensando no ocorrido. Buscando encontrar uma lógica plausível para o fato da luz se apagar do nada, para o reflexo que vi no espelho do banheiro e para a sensação que tanto me persegui.

Na aula de física, da segunda-feira, ficamos sabendo que teríamos que produzir um experimento e reproduzi-lo em sala de aula. O trabalho era em dupla, seria para a nota da terceira avaliação e deveria ser apresentado no dia seguinte. Que notícia maravilhosa, muito trabalho para pouco tempo. Só não entrei mais em desespero, pois a mãe do Pedro era professora de Física, da universidade federal do estado, e com toda certeza nos ajudaria com esse trabalho.

Como teríamos apenas uma tarde e uma noite para executar esse trabalho, para minha infelicidade, teria que dormir mais uma vez na casa do Pedro. Logo que saí da escola, liguei para minha mãe avisando do trabalho e que dormiria na casa dele. Antes de irmos para lá, passei em casa para pegar algumas coisas; uma muda de roupa e alguns livros sobre física.

Chegamos a casa dele, contamos tudo o que precisávamos fazer para sua mãe e logo de imediato ela nos sugeriu vários experimentos. Um mais complexo que o outro, com certeza levaríamos a noite toda para realiza-los.

Assim como previsto, levamos a tarde inteira e boa parte da noite para arrumar todo o experimento. Acabamos por volta da uma da madrugada. Como estava muito cansada, fui direto para o quarto que tinha sido reservado para mim. Para minha tristeza, era o mesmo quarto da última noite.

Chegando ao quarto, a primeira coisa que faço é ir diretamente ao banheiro para tomar um banho. Tomo o banho bastante receosa, não consigo para de pensar que a luz pode apagar novamente, a qualquer momento. E ainda tem essa maldita sensação, que nunca me abandona. Para minha sorte, a luz não se apagou. Troco de roupa e volto para o quarto para arrumar minhas coisas, deixar tudo pronto para sair pela manhã. Nisso a luz do quarto começa a piscar.

Vou em direção ao interruptor tentar arrumar o problema, pensando ser algo com ele, pois o interruptor é daqueles que tem vários botões para controlar a frequência da luz e a velocidade do ventilador. Conforme vou mexendo nos botões, a luz vai voltando; mas aperto em algum botão, que faz com que todas as luzes se apagassem de uma só vez, ficando apenas uma luz que vinha do quintal, que entrava no quarto pela janela. Por algum motivo, que nem eu mesma consigo explicar, na mesma hora que tudo ficou escuro, olho para o espelho do guarda-roupa e vejo um homem segurando um bebê pelo pescoço, tentando entrar pela janela do quarto.

Ao ver aquela macabra cena, meu corpo inteiro para... Não consigo me mexer, o medo e desespero tomam conta de mim; o único pensamento que tenho é de tentar acender a luz. Não sei de onde tirei forças, mas consegui levar a minha mão até o interruptor; saí apertando todos os botões novamente, na esperança que conseguisse reacender as luzes. Após várias tentativas, com aquele homem ainda na janela tentado entrar no quarto, consigo reacender as luzes. No mesmo instante que as luzes voltam àquela cena bizarra na janela some; a única coisa que consegui fazer após isso tudo foi sentar na cama e começar a chorar. Foi um dos piores momentos que passei na minha vida. Não tinha como tudo aquilo ser apenas coisa da minha cabeça; aquele homem, com aquele bebê, era muito real. Eu pude sentir sua presença maligna, sua raiva, seu ódio, seu desejo por mim. Tinha que sair daquele quarto e avisar o Pedro e sua mãe do que tinha acontecido. Todos naquela casa corriam grande perigo.

No mesmo instante que tomo essa decisão, as luzes do quarto começam a piscar novamente... Piscam até se apagarem; o quarto inteiro é tomado pela escuridão. Não consigo encontrar nem meu celular... Com muito medo, levanto da cama e vou me arrastando pela parede até chegar ao interruptor; o encontro...

Começo a apertar todos os botões, todavia dessa vez as luzes não acendem de forma alguma. Agora tomada pelo medo e desespero, tento encontrar a maçaneta da porta, para fugir desse maldito quarto. Minha busca é em vão, a escuridão não permite que eu encontre a saída. No mesmo momento sinto uma grande pressão meu corpo, parecia que algo ou alguma coisa estava em cima de mim. Aquela pressão vai aumentando até que sinto uma mão, uma mão pequena, agarrar minha perna. Dou um grito e congelo... Mas antes que meu grito pudesse sair, sinto uma mão agarrando e apertando minha garganta.

As luzes começam a piscar novamente... Olho mais uma vez para o espelho do guarda-roupa e vejo um homem, o mesmo homem que estava tentando entrar pela janela, me segurando pelo pescoço. Não tive reação alguma, pois estava sendo asfixiada. Enquanto ele me estrangulava, pude perceber que o bebê, que tinha visto antes, agora estava todo roxo caído no chão, perto dos pés daquele homem. Deveria ter sido estrangulado também. Agora me dou conta de que tudo aquilo é real, que não estava sonhando e que não era apenas coisa da minha cabeça. Mesmo com aquela mão no meu pescoço, tirei forças não sei de onde e gritei... Não foi bem um grito... O som que saiu da minha boca parecia mais um chiado de um animal agonizando. Entretanto foi o suficiente para que a mãe do meu amigo entrasse pelo quarto. No instante que a porta do quarto abriu, as luzes voltaram a funcionar normalmente e eu que estava sendo estrangulada caí no chão.

A senhora Paula me encontrou encostada uma das paredes, com marcas de mãos em meu pescoço, chorando em meio à dor, medo e desespero. A me ver naquele estado, rapidamente ela veio até mim; ao me tocar, Paula fica totalmente imóvel. Por algum motivo, naquele momento, eu estava emitindo a mesma energia daquele homem. A mesma energia ruim e perversa... Ela ficou parada a minha frente por alguns segundos, até recobrar a consciência. Totalmente de volta a si, ela me pega em seus braços e me leva para fora daquele quarto.

Sento no sofá da sala e a única coisa que consigo fazer é chorar. Vejo o Pedro vindo até mim, desesperado, perguntando o que tinha acontecido comigo, por que estava chorando daquele jeito, o que era aquelas marcas de mãos no meu pescoço. Todas as perguntas em vão, pois só fazia chorar.

Chorei por mais meia hora.

Um pouco mais calma, finalmente consegui contar a eles tudo que aconteceu. Desde a primeira noite, que apenas vi o homem tentando entrar pela janela, até hoje que quase fui morta por ele. Para minha surpresa, ao contar meu relato, a mãe do Pedro não ficou tão assustada quanto seu filho. Aos prantos, ela me olha nos olhos e me perde perdão. A pessoa que tinha vendido a casa ela, a alertou que coisas desse tipo poderiam acontecer. Porém, por não acreditar nos avisos e para não causar pânico no filho, ela manteve isso em segredo.

Ao saber disso, digo aos dois que não ficaria mais nenhum minuto naquela casa, queria minha mãe imediatamente. Que pedir desculpas agora não adiantava mais; eu já tinha passado por toda aquela experiência horrível, macabra e aterrorizante. O trauma para minha vida inteira já estava completo.

Passou-se quinze minutos até ouvir a buzina do carro da minha mãe. Pego minhas coisas e saio daquela casa, prometendo a mim mesma que NUNCA mais pisaria naquele lugar. Minha amizade com o Pedro continua, ele não tem culpa nenhuma nessa história.

Entro no carro e começo a chorar, mais uma vez. Consigo em meio às lágrimas explicar tudo a minha mãe; ela ficou desesperada ao ouvir minha história. Em vez de voltarmos para casa, ela me levou para um hospital, para tratar do meu pescoço machucado.

Fiquei no hospital por três dias. E todas as noites, sempre me cerifiquei de deixar todas as luzes bem acessas. Minha mãe esteve comigo todo esse tempo.

Finalmente recebo alta do hospital e volto para casa. Minha mãe pediu alguns dias de folga do trabalho para cuidar melhor de mim.

O dia ocorreu normal; consegui me alimentar bem, embora só pudesse ingerir coisas líquidas. Como sempre, desde aquele fatídico dia, o que mais me preocupava era à noite. Não queria mais nunca ter que passar por tudo aquilo...

A hora de dormir chegou. Sabendo da minha preocupação, minha mãe providenciou mais algumas lâmpadas para o meu quarto. Todas elas ficariam acessas durante toda a noite. Vou para a cama e recebo um beijo de “boa noite” da minha mãe. Mesmo o quarto estando muito iluminado, a claridade não me incomoda; pelo contrário, ela me conforta. Por muito tempo, não me sento tão segura quanto agora; sei que posso dormir em paz.

Todavia, essa paz não durou muito tempo... Acordo no meio da noite com meu quarto totalmente escuro. Todas as lâmpadas estavam apagadas, não vinha luz nem do corredor. Não era possível que tudo isso estava acontecendo de novo! Pensei que aquele homem estava ligado aquela casa e não a mim! Sou arrebatada mais uma vez pelo medo e desespero... Antes que eu pudesse abrir a boca, para gritar por socorro, sinto uma mão tapando minha boca e outra mão no meu pescoço. Ele tinha voltado! Aquele homem tinha voltado... E dessa vez, com toda certeza seria o meu fim...