A Barão e O Barão

Quando ainda era João Gomes, o Barão de Maruim herdou três engenhos, gado e outros imóveis. Casou-se, depois, com uma viúva que tinha outros três engenhos. A partir de tal base, conquistou títulos -políticos e religiosos- e postos na administração imperial: deputado, presidente da província e senador.

No final dos 1840, com dom Pedro II costurando uma rede de poder nacional através da entrega de títulos nobiliárquicos "fake" a fazendeiros e banqueiros das províncias, Dom João Gomes de Melo se converteria no primeiro nobre (não hereditário) nascido em terras sergipanas.

O barão foi também homem de sucesso no campo empresarial. O mundo demandava açúcar e o Vale do Cotinguiba, sua terra, possuia condições naturais ideiais para o cultivo da cana. A região chegou a representar as tres quartas partes da produção de toda a província e o barão a ser uma das figuras políticas mais proeminentes: a cidade de Maruim era a conexão de Sergipe com um grande negócio internacional; na cidade de Maruim, havia uma filial da empresa alemã Schramm, principal comercializadora mundial da gramínea.

A mudança da capital de São Cristóvão para Aracaju foi selada numa reunião no engenho Unha de Gato, que pertencia ao barão. Era bom que as autoridades estivessem mais próximas do porto por onde saia o açúcar em direção à Europa, com escala na Bahia.

Foto: Pixabay


O negócio internacional do açúcar era um gigante que pisava sobre a escravidão. No Vale do Cotinguiba, em tempos do barão, tinha uns 60.000 escravos registrados e a vida cotidiana era sacodida vez por outra pelas consequências dessa violência originária.

Os negros fugiam da exploração extenuante, formavam pequenos acampamentos, precisavam roubar para comer e isso assustava os brancos. O clima era de tensão. Em 1827, por exemplo, houve 168 denúncias de escravos dispersos. Em 1836, mais de cem escravos armados de espingardas, machados e foices invadiram a delegacia de Santo Amaro para libertar presos.

Entre os negros circulava informação sobre a sublevação exitosa do General Jean-Jacques Dessalines, em Haiti, contra os brancos franceses, e sobre a revolta dos escravos muçulmanos, na Bahia. Havia reuniões, intercambio de informação. Às vezes, a revolta de um engenho repercutia nos vizinhos e o medo de um novo Palmares tomava conta dos "cidadãos de bem". A elite do barão dispunha de batalhões de gente que eram pagas para 'caçar' os rebeldes. Toda manifestação cultural negra foi proibida: batuques, sambas, rodas de capoeira tornaram-se focos de atividade subversiva, como propagandeava o Barão - de bandidagem.

Implantou-se a pena de morte.

Foto: Bruno Casonato (Flickr)


Nós hoje sabemos mais da Barão de Maruim que de João Gomes de Melo, o Barão de Maruim. Se formos na Wikipédia ou nos relatos institucionais, vamos ouvir que foi líder, comendador e cavaleiro de ordem, construtor da igreja matriz e o hospital, que são ações que o aproximam da santidade, somam-se títulos que, desde nossa perspectiva atual, soam a contos de fadas.

No entanto, sob a poeira dos elogios ostentados, aparece o imperdoável flagelo da escravidão. Escandaloso, não apenas desde uma perspectiva de hoje, mas da perspectiva também daqueles tempos em que as ideias da Revolução Francesa circulavam por toda América do Sul. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. O Barão ocupou importantes cadeiras na política tanto estadual quanto nacional. Enquanto pelo mundo se abolia a escravidão, o Barão de Maruim explorava, marginalizava, açoitava, caçava, matava e quem sabe quantas atrocidades mais...

Por que não conhecemos essa face do Barão, de uma das principais avenidas da cidade? É como se a política atual sentisse a necessidade de criar uma imagem eternamente benévola do poder, da elite política que dá hospitais e igrejas sem se preocupar pela vergonha intelectual de misturar os ideais da monarquia e os da democracia.

Afinal, a Barão é um dos pontos de referência mais citados da cidade de Aracaju, do barão resta a pálida de ter sido um chefe político importante para Sergipe, o perfume do coronelismo paira e a história, os fatos, as atrocidades do Barão, é o que menos interessa.



Fonte: Fonsêca de Oliveira. "Por não querer servir a seu senhor": Os quilombos volantes do Vale do Cotinguiba (Sergipe Del Rey, século XIX). Tese de Douorado em História - UFP.

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