O Mercado: a era das trevas

Atualizado: Jun 27

A política durante quatro décadas se esqueceria do Mercado. Aracaju crescia em outros sentidos. De fato, a zona do Centro seguia sendo palco de cenas rurais que nem os setores mais inclusivos da sociedade toleravam: a Gazeta Socialista, por exemplo, achava imundo que as cabras ainda circulassem pela Praça Valadão.

Nos anos 60, com o boom do petróleo, a cidade atraiu muitos imigrantes, o entorno do Mercado era o lugar mais promissor para os que chegavam e precisavam viver de bico. Aparesceram casebres, formando uma “favela de barracos de taboa”, segundo os jornais, com pessoas que viviam entre as “ossadas extraídas dos animais abatidos”, num ambiente onde “o mau cheiro da terra fermentada pelas matérias orgânicas atraia bandos de corvos”. Com essas imagens e outras que falavam em ratos que faziam sua morada nas embalagens dos alimentos e baratas que caiam dos telhados na cabeça das pessoas, o mercado se convertia num espaço amaldiçoado no imaginário do setor mais incorporado à economia formal.

O problema, contudo, parecia simples: sanear o Mercado e depois mantê-lo limpo. Mas o prefeito alegava estar absorvido por questões mais prementes, como o surto de poliomielite que assolava a cidade ou a falta de gasolina, e a imprensa, não contente com a resposta, lembrava que sempre havia razões para os mais pobres esperarem, mas que aos deputados, juízes e promotores nunca faltava seu naco. “O governo oscila entre a defesa dos privilégios de meia dúzia e o descontentamento generalizado”, dizia, em julho de 1967, a Gazeta de Sergipe.

Como toda resposta a prefeitura mandaria pendurar uma mangueira de bombeiros à disposição dos feirantes, para que eles mesmos fizessem a limpeza uma vez por semana.

Fonte: Creative Commons


Na década seguinte, em 1977, o Diário de Aracaju anuncia em primeira página que os comerciantes sentem que o mercado vai desabar e que eles fazem promessas para que o desmoronamento ocorra sem vítimas. Contudo, dois meses depois, cai o teto do Mercado de Verduras, deixando como resultado oito mortos e 145 feridos.

O prefeito agora é João. Ele culpa o "ciclone" que varreu a cidade, pelo desastre mas a imprensa entrevista meteorologistas que asseguram que o mandatário exagera o poder da ventania, já que não podem produzir-se ciclones no Nordeste. A conclusão é que a tragédia -anunciada dois meses antes- aconteceu por descaso da administração.

O deputado Jackson reclama, pede menos atenção às praças e mais atenção ao povo.

Na década de 1980, tudo continua igual. Feirantes tentando tocar seu negócio, em meio a sujeira; pobres tentando ganhar o pão de cada dia, prostituição, delinquência, menores abandonados, pouquíssima esperança. Continua até a preocupação com os tetos: “a Prefeitura só irá fazer o serviço de recuperação do telhado, depois que um outro acidente for registrado”, diz um comerciante.

João não tem mais nada a ver, pois é governador.

O prefeito é Jackson.


Os dados foram extraídos da dissertação de mestrado: O Mercado Municipal de Aracaju e seus tempos: princípio, perda e reinvenção (1926-2000), de Andrea Rocha Santos Filgueiras.

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