Na Noite de São João

Atualizado: 13 de set. de 2021

“Já tô na Santo Amaro, casa de Margô. Daqui a pouco, sairemos”.

“Ok”.

“Como é, você vem, Niko?”

“Não sei... Estou pensando”.

“Sua vida é só pensar”.

“Não tenho culpa de ser assim”.

“Vai vir ou não?”

“Tô decidindo”

“Peste indeciso... Tchau”.

Desliguei o telefone. Acendi um cigarro, traguei e soltei uma fumaça pensativa, que ziguezagueou em torno da lâmpada. Era visível a dúvida dilatada no moído do pensamento: vou ou não vou? Verifiquei a programação, examinei as atrações. De interessante, só Cordel do Fogo Encantado, as demais não passavam de cerveja ruim. O que faltava na banda de Lirinha era uma guitarra para ficar mais rock and roll. Mas isso não era problema para a noite. Passei a considerar outros pontos. Talvez possa rever alguns amigos, algumas amigas, ou me bater com figuras incomuns. Talvez algo interessante possa acontecer, talvez me divirta e me embriague, talvez me perca e me reencontre na Praça do Povo, talvez... O acaso é mudo, não fala, nem se revela de antemão.

Fui ao guarda-roupa, vesti uma calça, joguei a camisa preta dos Doors por cima do corpo e calcei o tênis. Cocei a cabeça, enquanto mordia meus pensamentos. Lembrei de Arturo Bandini. Uma vez, Bandini me disse: “quer ser escritor, saia e aprenda sobre a vida, caminhe pelas ruas, latino-americano!”. Suas palavras ecoaram como um pontapé e ouvi os gritos da noite lá fora. Me levantei da cadeira, fechei a porta de casa e, com passos inseguros, saí para a rua.

No ponto de ônibus da Avenida Poço do Mero, havia jovens barulhentos, esperando o ônibus Bugio-Centro. Um grupo de cinco garotas conversavam sobre caras lindos, namoros, ciúmes e intrigas com outras garotas. Falavam dos ídolos do forró eletrônico. Ídolos fabricados e descartáveis quanto copos de plástico.

“Tô doida pra ver Aviões”, disse a mais atirada de todas. Ela usava blusa de xadrez, uma saia colada, bota preta até os joelhos e um batom mais vermelho do que um coração vulgar.

“Xand é um avião lindo, mulher”, disse a outra ao lado dela.

“Que nada! Gordinho feio do caralho!”, rebateu um rapaz que estava com elas. As garotas emitiram uma sequência de uis e gargalhadas.

“Ficou com inveja, repare!”.

Passou um cara alto, calvo e de olhos fundos, pela Poço do Mero. Usava calça e camisa de manga comprida, segurava uma bíblia e um terço na mão. Ele deu uma olhada em direção ao ponto de ônibus. Olhou para a frente, baixou a cabeça e desceu a avenida.

“Esse homem me dá medo”, disse uma magrinha torneada, com uma roupa coladinha no corpo.

“Por que, mulher?”

“Hoje de manhã, estava entrando no supermercado e ele chegou, do nada, e disse ‘tome!’ e jogou um monte de camisinhas em cima de mim. Pense no horror, mulher!”.

“Eu queria que fosse comigo, mulher, pra ele ver. Ia mandar dar a mãe dele, aquela puta safada”, falou a que parecia mais atirada de todas.

O ônibus apontou na segunda rótula da Poço do Mero, já estava lotado. Todos entraram com dificuldade, se apertando como sardinhas na lata. Naquele aperto todo, as garotas perfumavam o ambiente, enquanto os jovens azoavam o motorista e falavam bobagens. Cocei minha nuca com gesto de lamento: Niko, que porra você está fazendo aqui! Eia, alto lá! Escute Bandini, Niko: quer ser escritor, vá para as ruas. Faça como José Sampaio, observe sua aldeia. Sosseguei num canto, observando a juventude festiva, aqueles cabelos cortados de acordo com as marés da moda, aqueles neurônios da Era Digital, todos irmanados pela “ordem” e o “progresso” do país.

Quando o ônibus chegou ao sinal da Avenida Simeão Sobral com a João Ribeiro, havia um imenso engarrafamento. Se estendia até o Mercado Central. A galera começou a chiar com a demora. O motorista do ônibus, de repente, fez uma manobra para a esquerda e subiu a Avenida João Ribeiro. O futuro do Brasil vibrou em ondas sonoras:

“Aiiií, motor, arripia!”

“Bota pra foder, motor!”

“O gostosão daqui é você, motor!”

“Hoje tem que beijar na língua, motor”

“Ei, mano, o motor é pé embaixo”.

“Filma o motor, filma!”

“Huh-huh-huh-huh!...”.

Enquanto eles urravam, alguns celulares captavam as manobras e o rosto sério do motorista. Mais à frente, ele entrou à direita na Rua Amando Fontes, manobrou com perícia por algumas ruas estreitas do Bairro Industrial. Chegou ao ponto de uma bocada, parou e apurou a visão, como quem não sabia se a rua adiante tinha alguma saída.

“Óia, o motor tá perdido!”

“Filma ele, filma!”

“Vá em frente, motorista. Entre à direita”, falei. Ele foi, entrou na Rua Belém e saiu na Avenida João Rodrigues. Avançou pela mão direita da João Rodrigues e conseguiu chegar ao semáforo. O motorista contornou à esquerda, abrindo caminho entre as fileiras de carros e entrou no Terminal do Mercado.

“Vou descer aqui”, falei. Desejei bom trabalho para o motorista Seu rosto estava pingando de suor, passei pela catraca e saí pedindo licença.

“Dê espaço aí, mano, pro cara passar”. Falou um rapaz da turba zoadenta.

Contornei pela travessa Otacílio, fui direto para o portão da frente. Me deparei com outra fila quilométrica. Me estiquei na ponta dos pés, olhei por cima. Era gente que não acabava mais. Entrei na fileira, emanada de perfumes de mulheres, de bafos e empurrões. Fui avançando lentamente, sendo levado pela corrente. Atrás de mim, uma mulher apalpou minha cintura, tentando se segurar para não perder o calor da corrente. Olhei para trás. Ela sorriu simpaticamente e pediu desculpa. O macho dela a segurava por trás, me olhando com cara de macho que tem medo de perder a fêmea. Aos poucos, fui chegando ao portão de entrada, atento para que não me furtassem a carteira do bolso.

Entrei na Praça do Povo. Parei, fiquei examinando o espírito kitsch da multidão. Uma legião de mulheres enfeitava a praça e o cheiro delas excitava os instintos. De um lado e do outro, as barracas de drinks e os bares estavam lotados. Peguei o celular e liguei para Solange. O telefone chamou umas seis vezes. Maldição! resmunguei, vibrando o celular na mão. Tornei a ligar para Solange. Na sétima tentativa, ela atendeu.

“Está onde, Sol?”.

“É o que?”

“Você está onde?”, mal ouvia a voz dela.

“Estou no lado esquerdo do palco principal”.

“Caramba! Tá longe...”.

“É o que?”

“Chego já aí”.

“Não tô...”

Desliguei o celular e mergulhei na multidão. Não dava nem pra coçar os sovacos de tanta gente. Com muito esforço, andei uns 20 metros. Me aproximei da barraca Hellp Drinks, perguntei o que havia de algo forte para beber. Uma senhora muito simpática disse que tinha capeta, caipirinha, caipirosca, coquetel, nevada, príncipe-maluco e cajaroska.

“Príncipe-maluco é muito bom”, recomendou. “É o sucesso do São João”.

“Prefiro um capeta”.

“Com vodca ou tequila”.

“Com tequila”

“Copo médio ou grande”.

“Grande, com muita tequila”

Ela preparou o drink com habilidade de velha drinkeira. Bebi o capeta em grandes goles. Precisava amaciar a tensão dos miolos. Me embrenhei de novo no meio do povo, tentando abrir caminho. Um sujeito, ao passar por mim, me empurrou com gentileza. Colidi, inevitavelmente, no traseiro de uma galega, quase fungando em seu cangote. Ela se virou, me olhou firme. Sua expressão era agressiva. Tentei sorri, levantando os ombros como quem dizendo “foi mal”.

“Vai quebrar ovo no cu de sua mãe, filho da puta”, disse com muita educação.

“Foi sem querer, meu amor”.

“Meu amor, um caralho!”, disse ela, desaparecendo.

Avancei mais alguns metros naquele maremoto de corpos, caras, bocas e barulho. Eu parecia um barco à deriva, sendo empurrado de um lado para o outro. Avancei outros tantos metros em ziguezagues. Não consegui ir tão longe. Era impossível atravessar o maremoto. Parei ao lado de outra barraca de drinks e pedi mais um capeta. Me dei conta que havia chegado no meio da travessia épica. Fiquei tomando o capeta encostado num canto da barraca. À minha frente, havia um enorme telão. Lá estava o poeta Lirinha do Cordel no telão de plasma, recitando Ai! Se sêsse, de Zé da Luz. Me estiquei na ponta dos pés para ver o Palco Luiz Gonzaga lá no final. O show estava caminhando para o fim. Em torno, o rebanho já impaciente, começava a pedir Aviões do Forró. Mordendo os próprios dentes, perguntei quem foi o filho da puta que colocou o Cordel no mesmo dia do Aviões do Forró?! Só pode ter sido um gênio, um gênio. Puta que pariu! Desisti de ir em frente, seria insensatez. Peguei o celular, liguei para Solange. O telefone dela parecia estar fora de área ou desligado.

No telão, Lirinha anunciou que o show iria encerrar com muita chuva. Os tambores arrebentaram no palco, sua voz começou a “Chover”:

Chover chover

Valei-me Ciço o que posso fazer

Chover chover

Um terço pesado pra chuva descer

Chover chover

Até Maria deixou de moer

Chover chover

Banzo Batista, bagaço e banguê...


A chuva do Fogo Encantado não durou muito. O rebanho, ao meu lado, começava a vomitar vaias. Exigiam o fim daquela “porcaria”. Em seguida, um coro ensurdecedor de “queremos Aviões do Forró!” subiu aos céus. De longe, vislumbrei as mãos agitadas de um pequeno público bem perto do palco, cantando “Chover”. As vaias da multidão abafavam os sons da chuva do Cordel. Lirinha se despediu para tristeza do seu pequeno público. O Cordel deixou o palco e o locutor oficial, com voz de puxa-saco, convida o prefeito de Aracaju. O gênio apareceu, com os dentes abertos, acenando com as mãos levantadas, agitando-se como asas de suindara.

“E, com vocês, o prefeito do povo: Ele, ele, ele - Éeeeeeednaldo Aaaaaalves!”

O prefeito pegou o microfone e deu início ao seu show.

“Forrozeiros, forrozeiras de nossa Aracaju, através de nossos esforços, estamos trabalhando duro para fazer o melhor São João do Nordeste, valorizando a nossa sergipanidade, a autêntica cultura sergipana. Por isso, esse povo tão sofredor merece esquecer os problemas e se divertir. Por isso, aqui trouxemos esse fenômeno da música nordestina e do Brasil: Aviões do Forró! Bom São João para vocês, meu povo!”. A multidão gritou: “valeu prefeeeeito!” “É isso aí, prefeeeeito!” “Mandou bem, meu prefeeeeito!”. O locutor finalmente anunciou:

“Com vocês, a partir de agora, ao vivo, com transmissão da Aperipê e da TV Sergipe, Aviões do Forrooooooooooó!”

Quando a Aviões chegou ao palco, o delírio arrebatou a multidão. O vocalista mandou de primeira seu refrão de sucesso. Mulheres e homens se agitavam e rebolavam as ancas como num freak show: “Quem é o gostosão daqui... sou eu, sou eu, sou euuu...”.

Comecei a rir no meio daquele coro ensurdecedor. Invoquei Raúlzito e balbuciei: “pare o mundo que eu quero descer”. Acima de minha cabeça, bandeirolas multicoloridas vibravam com o vento do Rio Sergipe, as lanternas de celulares cegavam como flashs na multidão, e os selfies da vaidade criavam uma espécie de mantra digital do Século XXI. Acima das bandeirolas não se via as estrelas. Um céu escuro e tomado de nuvens recebia a onomatopeia urbana: “quem é o gostosão daqui... sou eu, sou eu, sou euuu...”.

Degustava meu capeta e observava aquela multidão delirando de prazer. Tanto ricos quanto pobres fudidos, mulheres e homens, todos pareciam estar num gozo fenomenal, movido pelo ritmo e pelo refrão da banda Aviões. Me perguntei: quem são esses Eus? Seriam patos boiando no mangue raso das periferias? “Por que tem patos “comendo lama” ao longo de “rios pontes e overdrives?”. O certo é que todos eles são condicionados e conduzidos pelo devir programado da maré digital.

Tomei meu último gole de capeta. Fui tentando sair para longe daquele pesadelo. Um godzilla de dois metros passou me empurrando e me jogando para o lado, gingando e gritando: “quem é o gostosão daqui... sou eu, sou eu, sou euuu!”. O godzilla me lançou contra outro sujeito em delírio. Senti seu bafo roçando de raspão a minha orelha. Me desviei dele, dei meia volta e me esgueirei pelas barracas de drinks.

O caminho era longo. Saí andando em busca do portão de saída. O coro do freakshow papocava meus ouvidos e meu espírito: “quem é o gostosão daqui, sou eu, sou eu, sou euuu...”. Vi uma fileira de dez pessoas andando mais rápida pela direita. Peguei carona na fileira até próximo do portão de saída. Parei na última barraca de bebidas, peguei mais outro capeta para aplacar a noite perdida. Olhei para foto dos Doors estampada na camisa. Jim, Ray, Robby e John riram da minha cara. Os capetas ferviam na mente, me vi como um anti-herói vilipendiado e movido pela raiva e pela angústia.

Passei pelo portão e, logo à frente, parei para arrumar as ideias enquanto bebia o capeta. Fui me distanciando do circo festivo, deixando para atrás o refrão do sujeito pós-moderno que ecoava na noite. Caminhei rumo ao ponto do táxi de lotação. Havia vários táxis. Perguntei, ao primeiro taxista da fila, se iria demorar. Ele disse que teria que completar o número de passageiros. Sentei num banco de cimento, sentindo o gosto da noite perdida. Peguei o celular. Liguei para Solange. Fiz sete ligações, sete tentativas sem êxito. Imaginei ela se divertindo com os amigos e as amigas, delirando “sou eu, sou eu, sou euuu...”.

Minha mente, iscada pelo capeta, girava em torno de sua própria órbita. As palavras de Bandini soaram na noite perdida: “se quer ser escritor, bicho, tem que se melar nas sarjetas da vida”. Depois, como numa imagem retrô-psicodélica, vislumbrei os maloqueiros de José Sampaio, bêbados e alegres, ali sentados na calçada do restaurante popular Padre Pedro. Os fogos de artifícios estouraram acima da Praça do Povo. Os maloqueiros gritaram, do fundo de suas misérias, “viva São João!”. Os pensamentos, a raiva, a angústia se evaporaram na fumaça dos fogos. A noite perdida de São João ganhou outras cores, uma outra visão, outra possível história. Me levantei, como que puxado por uma ideia redentora, subi em direção à Rodoviária Velha. Passei ao lado da rodoviária, desci a avenida Sete de Setembro. Para sorte minha, o Bar do Rock estava aberto.