Maria Thetis Nunes, uma mulher à frente do seu tempo

Maria Thetis Nunes foi mulher que sempre acreditou na marcha da História, sobretudo, no devir, no princípio de um mundo mais equitativo e humano. Suas obras e existência se pautaram pela luta constante e pela irrevogável esperança.




Considerada a mulher do século XX em terras sergipanas, a historiadora, escritora e professora Maria Thetis Nunes, nasceu em Itabaiana num dia 06 de janeiro do ano 1923. Garota das mais corajosas desfrutou de lúdica infância caracterizada pela sensibilidade e organização sem perder o frescor da recreativa idade. Residiu na Rua Cisco, filha de Seu José Joaquim Nunes e de Dona Maria Anita Barreto, herdou deles o espírito de labuta e do estabelecimento de objetivos. Dedicada, estudou as primeiras letras em sua terra natal, onde realizou o curso primário. Logo depois, transferiu-se aos 11 anos de idade para a capital sergipana, local em que fez o curso secundário no tradicional Colégio Atheneu Sergipense.

Essa vinda para a capital foi marcada por desafios. Trazendo consigo sua mãe, seus irmãos Fernando, que viria a se formar posteriormente em Direito, e Maria Emília, que se tornou uma normalista depois de cursar a Escola Normal passaram por todo tipo de provações. Sua afável avó, Dona Emília, acompanhou a todos nessa sinuosa jornada, pois era o braço direito da família, mulher dócil e bondosa, que mimava Thetis Nunes, deixando-lhe fazer as mais deliciosas peripécias. Thetis, por exemplo, adorava subir em árvores, áureos tempos que a marcaram por toda vida.

Na seara escolar, concluiu o ensino fundamental no ano de 1939, no Colégio Estadual de Sergipe. Três anos sucedâneos, em 1942 prestou vestibular na Faculdade Católica de Filosofia, no estado da Bahia, sendo aprovada em primeiro lugar no exame de admissão, e recebeu o título de Bacharel em Geografia e História do Brasil no ano de 1945.

Foi a primeira mulher sergipana a ingressar no ensino superior, formando-se em História e Geografia na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, sendo também a precursora no ensino ao ter lecionado no influente Colégio Atheneu, aonde como vimos cursou o secundário. Além da formação na Bahia, cursou Museologia pelo Museu de História Natural. Anos depois, em 1951, por indicação do então governador do Estado à época Arnaldo Rollemberg Garcez, viria a se tornar a primeira Diretora do Atheneu durante os anos de 1952 a 1955, em que se destacou pelas reformas pedagógicas que implantou com lancinante esmero.

É válido destacar que em ambos os cursos de formação alcançou sempre a primeira colocação. No ano de 1945, Thetis Nunes ainda em seus tempos de estudante universitária, prestou concurso no Atheneu Sergipense, onde disputou a cátedra de História, ocasião em que defendeu a Tese ‘Os Árabes: Sua Influência na Civilização Ocidental’. O ano de 1956 marcou a sua entrada na primeira turma do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), onde concluiu pós-graduação em História da Educação no Brasil. Lá representou Sergipe, permanecendo por alguns anos, como professora-assistente da cadeira de História regida pelo Professor Cândido Antônio Mendes de Almeida.

No término do curso, apresentou o louvável trabalho ‘Silvio Romero e Manoel Bomfim – pioneiros de uma ideologia nacional’. Ficou quatro anos no referido Instituto, atuando como assistente da cadeira de História e aproveitou para se dedicar com afinco tanto ao ensino quanto à pesquisa.

O ano de 1961 marcou a posse de Thetis Nunes como Diretora no Centro de Estudos Brasileiros na Argentina nomeada pelo Ministério das Relações Exteriores, onde lecionou na Universidade Nacional do Litoral. Nos quatro anos que exerceu o cargo, realizou extraordinário trabalho de divulgação da cultura brasileira na imprensa, no rádio, nos meios universitário e artístico. Ainda na Argentina, lecionou Geografia Econômica do Brasil, Evolução Econômica do Brasil na Faculdade de Ciências Econômicas e Evolução Cultural do Brasil na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

Regressou para Aracaju anos depois em 1968, assumindo a cátedra de História do Brasil, História Contemporânea e Cultura Brasileira, na então recém-criada Universidade Federal de Sergipe. Na UFS, Maria Thetis Nunes sob a qualidade de Decana, foi por duas vezes Vice-Reitora e ainda representante dos Professores Titulares no Conselho Universitário. Aposentou-se contabilizando 47 anos de magistério, ocasião esta em que recebeu o honorífico título de Professora Emérita. No ano de 1979, sob o patrocínio do CNPq, Thetis Nunes realizou levantamento crucial das fontes primárias acerca da História de Sergipe nos Arquivos de Portugal.

Maria Thetis Nunes foi daquelas figuras que não esmoreciam e atuou em diversas linhas de frente pela cultura sergipana com projeção em cenário além-fronteiras. Pertenceu a várias Instituições científicas e culturais, foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe durante três décadas consecutivas durante os anos de 1972 a 2003, lá fez trabalho pioneiro de fortalecimento da historiografia sergipana. Frisemos que Thetis ingressou no IHGSE como sócia efetiva no ano de 1946 e durante a administração de Garcia Moreno assumiu cargo de 2ª secretária.

Durante sua exímia gestão, o Instituto celebrou efemeridades, realizou ciclos de palestras, houve organização e dinamismo da biblioteca, conseguindo também o tombamento do acervo. Outro dos destaques foi a conservação do acervo tanto artístico quanto documental, além do pontapé para a restauração dos quadros da pinacoteca. Ao deixar a eminente Casa de Sergipe, Thetis Nunes foi agraciada com o merecido título de Presidente de Honra da entidade.

Foi membro destacada do Conselho Estadual de Educação de Sergipe durante os anos de 1970 a 1981, chegando a ocupar a sua presidência no ano de 1976. Integrou o Comitê Diretor da Aliança Francesa, Seção de Sergipe. Representou com magnífica desenvoltura o Estado, a UFS, os Conselhos Estaduais de Educação e de Cultura em diversos Congressos, Simpósios e Encontros realizados em vários Estados do Brasil. Colaborou de maneira torrencial em jornais da Argentina, e forneceu aportes de forma profícua em periódicos locais e revistas sergipanas.

Após ter publicado inúmeros livros e artigos, Maria Thetis Nunes ocupou a cadeira de número 39 da vetusta Academia Sergipana de Letras. Recebeu diversas condecorações, dentre às quais podemos realçar: Medalha de Mérito Cultural Inácio Joaquim Barbosa e a Medalha de Mérito Serigy, ambas concedidas pela Prefeitura de Aracaju. Além dessas, ganhou a Medalha Tobias Barreto de Mérito Cultural promovida pelo Governo do Estado de Sergipe, Medalha do Mérito Cultural Silvio Romero oferecida pela Academia Sergipana de Letras, e foi Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Sergipe.

No magistério superior, foi professora da UFS e lecionou na clássica Faculdade Católica de Filosofia, da qual foi fundadora, presidiu sua Congregação constituída dos nomes mais ilustres da cultura de Sergipe. Dentre suas principais obras, podemos elencar: ‘Sergipe no Processo da Independência do Brasil’ (1972), ‘História de Sergipe a partir de 1820’ (1978), ‘História da Educação em Sergipe’ (1984), ‘Sergipe Colonial I, 1989’ (1995), ‘A Contribuição de Felisbelo Freire à Historiografia Brasileira’ (1996), ‘Ensino Secundário e Sociedade Brasileira’ (1999) entre outras que continuam a marcar o cenário intelectual de Sergipe e do Brasil.

Maria Thetis Nunes nos deixou num dia 25 de outubro do ano 2009, contabilizando 86 anos de idade. Seu corpo foi velado na Academia Sergipana de Letras e sepultado no Cemitério Colina da Saudade. Conclui-se que Thetis Nunes foi uma mulher à frente do seu tempo, sua preciosa contribuição nas áreas da cultura, literatura e magistério são perenes e vultosas. Foi responsável pela formação de várias gerações de intelectuais sergipanos. Devido a sua audácia e vivacidade, abriu espaço para as mulheres na sociedade em geral e, sem dúvida alguma, ajudou a edificar e difundir a história cultural do nosso formidável Estado de Sergipe.

A sua relevância permanece crucial para o ensino e para a propagação da nossa rica seara educacional. Maria Thetis Nunes não só nos auxilia a conhecer a História de Sergipe, mas pela exemplar inovação historiográfica, se integrou a ela própria. Ao conhecê-la estamos reconhecendo os meandros da esplêndida cultura sergipana como um todo.

Sorte a nossa ter historiadora de tão distinto quilate que não perece entre nós!




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