Ilma Fontes: Símbolo de reluzente Sergipanidade




Coisa do Amor

Transpor montanhas e dormir em cama de varas

é coisa do amor, assim como comer barro

e cuspir estrelas, aproximar horizontes

e fazer as paralelas se encontrarem

numa esquina da vida

é coisa do amor


suportar esse elevador subindo e descendo no peito

indo do riso à lágrima na veracidade da luz,

na ferocidade do som,

ouvindo a velocidade do mar

na moto-serra do silêncio desfeito

...

heroico e mendigo rei que a todos seduz

o amor faz coisas que o tempo não dilui.

O amor me faz querer agora morrer

Para viver saudade dentro de você.

FONTES, Ilma. Nervuras: Poesia em Carne Viva. Aracaju, Edise, 2019


No dia 03.04.2021, Sergipe perdeu uma das maiores agitadoras culturais que já se viu aportar por aqui em nosso belo Quadrado de Pirro. O universo intelectual, jornalístico, médico, cultural e artístico fez-se mais vazio após a sua partida. Ela que não era a Rita Lee, mas a Irrita Aqui, persistia sem receio, questionava sem temores. Não pensemos que pelo seu fenecimento terrestre, a Ilma de sensibilidade lancinante desvanece. Muito pelo contrário, está mais vívida do que nunca. Não é qualquer Mulher que edifica um legado inolvidável tecido com muita ousadia por mais de cinco décadas na seara jornalística sergipana, do Brasil e do mundo.


Ilma Mendes Fontes nasceu num dia 10 de abril do ano 1947 em Aracaju, Sergipe. Talentosa desde tenra idade, inventiva filha de costureira com funcionário público, Dona Jenny Mendes Fontes e de Seu Aderbal Fontes de Araújo Góis. Além de psiquiatra, legista, atuou com afinco e trocou a seara médica pela ambiência jornalística, do cinema e foi paradigmática no Ativismo Cultural. Tanto é que tão exitosa nessa troca de exercício profissional, acabou escrevendo diversos roteiros, dentre os quais: ‘A Fúria da Raça’ que foi lançado no ano de 1997 em formato de livro. Dirigiu o Departamento de Produção da TV Educativa de Sergipe entre os anos de 1984 a 1987, onde se realizou documentários e dirigiu alguns programas veiculados semanalmente.


Ilma Fontes colaborou com mais de cem números de antologias nacionais, chegando a publicar em países mundo afora como Portugal, Itália, Tunísia e Grécia. Suas corajosas letras alcançaram também a Coréia e à China. Fez legado indelével na clássica TV Aperipê, onde roteirizou e dirigiu a primeira minissérie feita por uma TV Educativa, fora do eixo Rio-São Paulo, intitulada ‘A Última Semana de Lampião’, esta última teve participações de atores relevantes como Orlando Vieira, Walkiria Sandes, Padre Pedro, dentre outros. Editou brilhantemente o vanguardista ‘O Capitão’, jornal cultural que influenciou sucedâneas gerações. Atuou como curadora do Espaço Cultural da Assembleia Legislativa de Sergipe, durante os anos de 2003 a 2017.

Sua verve poética se refletiu como a cineasta que abalou as estruturas conservadoras sergipanas, ao ter lançado numa antológica noite do ano 1980 seu audaz curta-metragem ‘O Beijo’ junto com Yoya Wursch que o dirigiu e roteirizou. Um beijo lésbico naquela época só poderia ser veiculado pelas mãos de Ilma que nunca temeu nada nem ninguém. Jamais se deixou esmorecer pelo conspícuo preconceito que sofreu ao longo do tempo, úlcera nefasta que penitencia os artistas e a arte local em geral. Sua luta, persistência são dignas do mais alto louvor. A médica psiquiatra e legista era defensora irrefreável do Teatro, reverenciava como ninguém os atores e diretores da nossa formidável ambiência telúrica.

A resistente ao ordinário concebia a atmosfera circundante com arguciosa ironia. Esse genial e lúcido sarcasmo era muito proveniente da influência quando esteve ligada ao movimento da poesia concreta ou marginalizada dos efervescentes anos 70. Ilma Fontes fundou alguns jornais, como o ‘Pipiri’, trabalhou por mais de oito anos na mítica ‘Revista Aracaju Magazini’, atuou na ‘Gazeta de Sergipe’. Entre tantas maravilhosas publicações esculpidas pela sua inerente genialidade, podemos elencar: ‘Melhor de Três – Roteiros para Cinema’ e a ‘Fúria da Raça’. Ilma escreveu, produziu e dirigiu junto com Uoya Wurch, o hermético ‘Arcanos (O Jogo)’.


Nos gloriosos tempos de Jornal ‘Folha da Praia’ com o saudoso Amaral Cavalcante, Ilma Fontes se destacou com sua briosa Coluna, sendo dinâmica editora assistente. Foi diretora da Clínica Adauto Botelho em 1976, na área da cultura, presidiu o Conselho Municipal de Cultura, a Funcaju, foi vice-presidente do Conselho Municipal de Cultura, atuou como Membro do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, além de compor quadro na Sociedade de Cultura, do Sindicato dos Jornalistas e Radialistas de Sergipe. Fundou a Associação Sergipana de Psiquiatria. Seu mais recente livro foi o catálogo artístico, intitulado ‘Álvaro Santos – Memórias’.


Foi Presidente do Conselho Municipal de Cultura em 1995, Presidente da Funcaju no ano de 1996, Vice-Presidente do Conselho Municipal de Cultura em 1997, Membro do Conselho Estadual de Cultura entre os anos de 2001 a 2005, Membro do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher no período concernente a 2003 e 2004 – Nesse quesito vale destacar o quanto Ilma Fontes sempre foi uma defensora ferrenha das Mulheres em cenário sergipano e brasileiro em geral. Foi Membro do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, do Sindicato dos Artistas e Técnicos do RJ e membro de várias associações, onde escreveu para jornais, revistas do Brasil e além-fronteiras.


Dirigiu o Complexo Cultural Lourival Baptista da Secretaria de Estado da Cultura de Sergipe, onde reativou e coordenou habilmente os Prêmios Santo Souza, de Poesia e Núbia Marques, de Contos entre os anos de 2003 a 2004. Também foi Diretora da Galeria Horácio Hora nesse referido período.


Ilma Fontes participou de inúmeras antologias de poemas nacionais, como no caso ‘Nova Poesia Brasileira’ em 1992, antologia ‘Poesia Sergipana do Século XX’ em 1998, ‘Álbum de Sergipe’ em 1989, dentre outras. Fundou alguns jornais – ‘Jornal Folha da Praia’ com Amaral Cavalcante no ano de 1981, ‘Vídeo Art News’ ao lado de Alfredo Mendonça em 1987; o ‘Pipiri – O Jornal da Cultura’ no ano de 1986. Fez parte da composição de juris de poesia, teatro, literatura, música, cinema, fotografia e ganhou diversas premiações em Sergipe, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. No início dos anos 2000, Ilma participou do mítico Programa Provocações apresentado pelo saudoso e respeitado Antônio Abujamra, onde ela já explicava naquele tempo que Sergipe carecia e ainda carece de longas-metragens sobre seu rico cenário.


Podemos realçar alguns dos prêmios que alcançou ao longo da sua extraordinária vida. Essa nossa figura ilustre do campo cultural foi homenageada com a distinta Medalha da Ordem do Mérito Serigy em 1996, Medalha do Mérito Parlamentar promovida pela Assembleia Legislativa de Sergipe no ano de 2003, Medalha Sílvio Romero da vetusta Academia Sergipana de Letras também em 2003. E para quem não sabe: Ilma Mendes Fontes teve a singular proeza de ser eleita a ‘Mulher do Século XX’ pelo SESC/Sergipe no ano de 2001, recebendo de maneira posterior, diversas outras honrarias tão merecidas pelo seu espólio de infindáveis ensinamentos e ações em prol da Sergipanidade tanto num nível nacional quanto internacional.


Todos a parabenizamos, pois a Sergipanidade pode doer como ela mencionava em seus geniais poemas – mas creio que toda a Sociedade acredita que Ilma Fontes, a sergipana aguerrida permanece viva e sempre vai ser a quintessência cura para a aflição existencial que nos aflige cotidianamente.


Luiz Antônio Barreto, o mítico historiador já afirmava em seu famigerado artigo ‘Sergipanidade, um conceito em construção’ publicado em 2011 que:

“Nas últimas duas décadas a Sergipanidade começou a ser tratada como um conceito cultural, capaz de inspirar artistas, escritores, pensadores, qualificando um sério e inarredável compromisso das manifestações da cultura (...). Os sergipanos compõem um povo que fez da luta o caminho de sua afirmação, e renova, a cada dia, a cada episódio de sua trajetória, a mesma lição em defesa da liberdade contra todos os tipos de opressão, do direito como instrumento contra os privilégios, da prosperidade para evitar a indignidade da vida, da justiça para conter as hegemonias. Forma-se, então, a consciência pedagógica para o viver comum, fortalecendo as fronteiras da identidade própria. É com esta noção de Sergipanidade, como atitude tanto individual quanto coletiva, que devem florescer as manifestações artísticas, as contribuições lúdicas, fazeres e saberes, usos e práticas circulantes a serem incorporadas pela aceitação, para serem consagradas e renovadas”.


Ilma Fontes partiu, mas se renova e permanecerá se reconstruindo a cada instante – Só uma figura lendária da literatura nacional, da nordestinidade e do jornalismo audacioso como ela para nos ter deixado tão sublime Legado.


Viva Ilma Fontes, Mulher afeita e concebida de Poesia, o nosso imorredouro Tesouro!


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