H de húmus, F de funesto

Atualizado: Mar 28

SUPERSTIÇÃO

H. F.

As duas iniciais do nome a que respondo

(e é pena que, horas e horas, me atarefe

nesta superstição!),

as duas iniciais do meu nome – H. F.

têm um símbolo bom, junto a um símbolo hediondo,

um destino de herói e um de vilão:

há no H uma escada, um degrau de subida,

uma vaga noção de arquitetura

interrompida...

O F é, porém,

forca... poste fatal... marco do fim da Vida...

guindaste de almas para a sepultura,

para a eterna Altura,

para o Além...

Para subir à força do meu F

tenho ao lado uma escada – o meu H.

Carrasco, magarefe,

alto lá!

Alto lá!

Por suas iniciais, meu nome ensina

a não temer pressentimentos vãos.

Ergástulo, fogueira, ou guilhotina,

cicuta, ópio, ou morfina...

- Quem sabe a sua sina?

- Quem sabe lá se há-de morrer por suas mãos?

H de húmus. F de funesto.


Começo a pensar em quais palavras que começam com h caberiam no título desse texto. Penso no h de humor. Talvez no simples h de humilíssimo. Lembro-me da infância: — Guilherme, o h não produz som. Ele é base para o som da próxima letra, um alicerce, uma fundação. Você não vê, não ouve, mas ele está bem ali. E se o h maiúsculo possui a aparência de uma escada para Hermes Fontes, uma escada para um último caminho (dead man walking), para o fatal, para o f; o minúsculo h nos é ensinado que é uma cadeira. — Guilherme, desenhe uma cadeira para escrever o h.

Seja escada, seja cadeira, a metáfora ainda está ali. Não importa para o f se ele é minúsculo, se é maiúsculo, o formato de poste de forca persiste. Portanto, se lermos bem, é erro pensar que esse poema só possui humor. Ou pior, ele é menos humilíssimo do que humano. Deixemos de lado palavras genéricas. Como o poema diz, não devemos temer pressentimentos vãos. Então fiquemos com húmus e funesto, território de decomposição e a morte que carregamos.

Anda H.F., no começo do poema, carregado pelas infrutíferas observações de que as iniciais do seu nome preverão seu futuro fatal. Infrutíferas porque diversas palavras vêm à tona, “Ergástulo, fogueira, ou guilhotina,/cicuta, ópio, ou morfina”. É nesse balaio de palavras que ele espera encontrar o caminho. As superstições que tomam seu tempo constroem a arquitetura ou meio de sua morte. Ou seja, por causa dessas palavras ele não sucumbe. São essas palavras, que surgem da vidência das letras — como se fossem búzios —, que fazem com que ele saiba que qualquer uma daquelas será seu fim.

Por isso H.F. solta um grito de aviso, “alto lá!”. Esse grito torna-se a virada do poema. Desde o primeiro verso é como se o poema fosse uma canção para uma dança da morte. Pois a partir de sua musicalidade, há uma construção de imagens percebidas que transpõe a resposta de H.F. ao “Carrasco, magarefe”. Mas também é o “alto lá” que informa a morte (no papel célebre de carrasco) de que ele vai morrer, isso é certo, mas de que forma ele não sabe. “Quem sabe a sua sina?”. É a imagem criada pela música que o liberta da morte pelas mãos frias do carrasco eterno. A música que o guia para um território incerto, um território regido por interrogações.

Pode ser pelas mãos do magarefe ou “Quem sabe lá se há-de morrer por suas mãos?”. Por isso que o h maiúsculo como escada e o h minúsculo como cadeira conversam com a metáfora que Hermes Fontes cria. O h é o objeto que levará H.F. ao ponto final, a forca, o f. Esse é o caminho fatal: talvez a morte que me leve talvez seja eu que me esvaio (com as próprias mãos), assim pense H.F.. Já Hermes Fontes achou resposta a esta pergunta no dia 25 de dezembro de 1930.

Quem sabe o carrasco apareça e diga: — Guilherme, porventura H.F. encontrou em suas iniciais a guilhotina. Quem sabe? Quem sabe?


Escrito por:

Guilherme Guimarães


Glossário:

Hediondo

Magarefe

Ergástulo

Húmus

Humilíssimo

Cicuta



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