Dom José, o bom comunista

Em 1977, Dom José Brandão depõe na CPI do Sistema Fundiário, como representante do Nordeste, na Comissão Pastoral da Terra. No palácio, o bispo de Propriá denuncia que em Sergipe e na Bahia os grileiros tomam posse das terras com documentos falsos -chancelados depois por tabeliões cúmplices- e amedrontam os camponeses com seus capangas armados.

As palavras caem como uma bomba. Dois deputados baianos propõem uma outra CPI para investigar a acusação do religioso, que passa a ser suspeito de ser comunista. Mas as palavras do padre Brandão não são refutadas com evidências. Ao contrário, o bispo de Salvador, em declarações públicas, sai em apoio de seu colega de Propriá.

Dom Brandão, por sua parte, achava muito estranho que a opinião pública se detivesse a considerar sua suposta ideologia mas do que o quadro de abusos e violência que ele expussera no parlamento.

Mas eram tempos em que o fantasma do comunismo ainda vivia e tinha uma eficácia para assustar muito maior que a de agora. E dom Brandão tinha um histórico de luta pela justiça social que o fazia merecedor do galardão. Tinha participado em conflitos com os poderes do lado dos camponeses, abraçava as ideias e o acionar da ‘opção pelos pobres’, defendia a reforma agrária, como ‘uma das exigências cristãs mais importantes’, porque era a única maneira de reverter a marginalização do camponês.

Políticos, fazendeiros, magistrados e policiais estavam entre seus inimigos. Em 1978, o irmão do prefeito de Propriá invadiu uma missa, tomou o microfone do padre que oficiava o culto e acusou-o de pregar o comunismo, junto com seu protetor, o bispo.

No arquivo dos organismos de inteligência do governo, figurava que dom Brandão estimulava conflitos, mantinha ligações com organizações subversivas espalhadas pelo Brasil e se valia de padres auxiliares fanáticos para incutir na mente dos camponeses que a terra é para todos.

Em 1980, dom Brandão teve um encontro com João Paulo II, em Roma. Levou os temas da grilagem, da proletarização do povo, da trama de documentos falsos e violência policial com que as elites da sua diocese se apropriavam de terras.

Dez anos depois, aposentava-se e o mundo seguia andando.

Morreu na véspera do Natal de 1999, em Minas Gerais.

Hoje é uma rua de Propriá.