Confiança em primeiro lugar

As elites políticas costumam vender o crescimento econômico como algo intrinsecamente benéfico para todos. Se cresce a economia brasileira, todos os que moram no país estarão melhor e outro tanto vale para o crescimento de Sergipe e todos que moram nesse estado. Por outro lado, a economia cresce quando se incentiva o empreendedorismo e por isso o Estado ajuda os empresários (com dinheiro público) para que eles invistam e gerem emprego. É um círculo econômico virtuoso que os governod mantém girando para criar um sistema gerador de prosperidade.

Claro que esses panoramas econômicos que costumam pintar as elites rara vez são fiéis à realidade e não foi diferente o caso, lá na virada dos 1900, com a indústria da tecelagem, em Aracaju. O algodão era o segundo cultivo do estado, a tecelagem a principal indústria, era indubitável que o ‘setor’, formado por duas empresas, merecia isenções impositivas e que o Estado deveria bancar a capacitação do pessoal, que vinha da lavoura agrária.

Mas, como em muitas outras ocasiões, os benefícios do crescimento não chegavam aos trabalhadores da indústria têxtil, o círculo virtuoso da economia não chegava a fechar pela parte de baixo. Ainda quando a fábrica mais importante da primeira metade do século XX se chamara Confiança.

Os trabalhadores sofriam a disciplina da fábrica: pontualidade medida em segundos, estrito horário de almoço, barulho, elevadas temperaturas, o chicote da produtividade, a ameaça da demissão... Moravam em Siqueira Campos ou no Bairro Industrial, onde as ruas tinham nomes como Topo ou Vai Quem Quer e havia um beco do Sovaco e outro das Sete Facadas. Eram acordados pelo estrondo das sirenes da fábrica e circulavam por ruas sujas até a fábrica, respirando pó de algodão que lhes provocava doenças respiratórias.

Enquanto isso, no pequeno círculo da elite o virtuosismo econômico fechava e os bairros eram afrancesados à moda de Rio de Janeiro e o presidente do Estado assegurava que os baixos salários na indústria não eram um problema porque os alimentos estavam baratos< ainda quando esses trabalhadores se vissem obrigados a substituir a proteína com farinha a maior parte dos dias do mês.

Em 1921, aconteceu o primeiro desentendimento entre a diretoria da Confiança e os trabalhadores. A empresa tinha 600 empregados, a maioria mulheres. Reunidos em assembleia, os operários elaboram um plano de ação para reduzir a jornada de trabalho de 11 para 8 horas, como no 'mundo civilizado'. O dono da empresa, coronel Sabino Ribeiro Chaves, só aceita nove. Os operários tentam uma greve, que falha por falta de adesão. O coronel aproveita para sacodir o fantasma do comunismo, que assusta os habitantes do lado afrancesado da cidade, mas o presidente do estado dá a razão aos de baixo.

Depois de anos de apoio estatal ao crescimento do setor têxtil, os trabalhadores recebiam por fim seu primeiro benefício.


Fonte: Wagner Emmanoel de Menezes Santos. “O paraíso termina quando o trabalho começa”: Cotidiano operário e poder disciplinar na fábrica têxtil Confiança (Sergipe, 1943-1957).


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