BAFAFÁ NA VIDA INTELECTUAL SERGIPANA

Escrito por: Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos


Quem disse que gente inteligente não briga desconhece os bastidores de alguns dos lugares mais distintos da vida cultural brasileira. E em Sergipe isto não é e nunca deixou de ser uma exceção. Os desentendimentos e até mesmo os famosos “barracos” também fazem parte da vida intelectual dos imortais. Atrás dos fardões, das requintadas expressões e do enfadonho discurso panegírico, a história registra um bom, para não dizer, bafafá.

No último dia 9 de setembro de 2021, na esteira das manifestações do 7 de setembro, o jornalista Octávio Guedes, do G1, publicou um artigo intitulado “Bolsonaro fundou a República do Bafafá”. A expressão usada por ele é comum na língua portuguesa praticada no Brasil desde a conquista, em 1500. Como parte de uma rica variedade de termos notadamente populares, há quem goste de um “bafafá”, leia-se também “confusão”, “discussão acalorada”, “pega”, “agitação”, “tumulto”, ou ainda “pega prá capar”, entre outras.

De imediato, lembrei-me dos meus tempos de graduação e mestrado, quando de meus estudos em torno da intelectualidade sergipana do final do século XIX e início do século XX, em especial de três deles (Sílvio Romero, Tobias Barreto e Manoel Bomfim) que os escolhi para refletir sobre o assunto, isso para não melindrar os imortais vivos, alguns deles ou boa parte deles, meus confrades nas bem-letristas casas de Sergipe, da mãe fundadora à papa-jaca, das terras do Lagarto.

Aqueles sujeitos em que pesem todos eles terem tido a melhor das intenções em civilizar o povo brasileiro de forma a fazê-lo útil e apto ao progresso, preconizando o investimento governamental em educação gratuita e para todos, foram protagonistas de cenas homéricas de bafafás: de divergências de pensamento à ofensas pessoais, típicas de brigas de bar ou mesmo de rua. Alguns deles tendo como palco primordial a imprensa escrita, ou até mesmo livrarias e logradouros muito conhecidos, a exemplo da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, um dos lugares centrais da vida cultural e intelectual brasileira daquela época, ao lado de Salvador e Recife, também.

Tobias Barreto (1839-1889), natural de Campos, que hoje leva seu nome, teve um conhecida rusga com o médico José Soriano de Souza, sobretudo em razão de um concurso onde os dois concorreram para a vaga da cadeira de Filosofia do Ginásio Pernambucano, mas também por conta de divergências quanto a projetos educacionais para o Brasil. Outro caso conhecido, em que Tobias não poupou investidas ao seu oponente foi com relação ao o médico-cirurgião e deputado Malaquias Gonçalves, que segundo Barreto usava um argumento “decrépito e sem razão ser” para discriminar a condição “inferior” da mulher. Em uma das cartas que trocou com Sílvio Romero pedia que ele preservasse seu legado e temia cair nas “garras dos infames”.

Sílvio Romero (1851-1914), natural de Lagarto, foi um mais virulentos de todos, um polemista por excelência, que não poupou nem mesmo Machado de Assis lhe atribuindo a peja de “gaguinho”. Discípulo, admirador e mecenas de Tobias Barreto, a este também lhe rendeu algumas críticas. Nesse caso, mantendo o devido respeito. O mesmo não podendo dizer de outro sergipano, de Aracaju, o médico Manoel Bomfim (1868-1932). Totalmente oposto à explicação eugênica da formação do povo brasileiro e aos destinos da nação, Romero massacrou Bomfim. Foi, talvez, o bafafá mais conhecido de nossa história intelectual. E olhe que Bomfim pouco ou quase nada correspondeu aos embates de Romero, deixando-a a vociferar sozinho.

O certo é que na vida intelectual sergipana teve barraco, e tem ainda, dos bons. Alguns mais discretos, outros tão evidentes como os que aqui destaquei. Às vezes, o bafafá é sorrateiro, onde a tática do esquecimento, da anulação e da ocultação do outro é tão velada que só o atacado percebe ou os demais se calam, se omitem ou se acovardam sob pena de perderem as migalhas que caem das cadeiras. E haja bafafá!