As portas da esperança

Atualizado: 27 de ago. de 2021

No mundo inteiro havia portas com oportunidades, portas que conduziam a espaços dominados pelo País dos Caras. Os jovens estudavam inglês, faziam MBA, batiam em alguma das portas e eram atendidos por entusiásticos agentes do mercado que premiariam sua inteligência e/ou talento, depois de vinte ou trinta lógicos anos de suor e lágrimas. O prêmio no final da carreira era um salário que permitia olhar de cima o próprio passado.

Pancrácio e Remilga foram separados pelas portas no momento em que francamente mais se amavam. Pancrácio tinha vinte e poucos anos e muita pressão em casa para ser alguém na vida. Tirava boas notas, apontava para promessa. Um dia decidiu bater e, na segunda oportunidade, passou. Sempre tinha sido meio palhaço, meio brincalhão, e sua personalidade encaixou perfeitamente naquilo que essa corporação precisava nesse instante.

Remilga ficou para trás, bateu em sete portas onde foi ignorada ou desprezada e, incluso, chegou a ser assediada sexualmente.

Foto: Cam (Wikipédia)


Pancrácio passou os primeiros anos entrando pela manhã e saindo à tardinha. Remilga o acompanhava até a porta. Quando regressava, ele trazia um bolo com um creme aveludado, que só se conseguia do outro lado da porta, e trazia também cigarros longos e finos e bebidas gostosas e cativantes. Um dia Pancracio trouxe um conjunto de vestido, sapatos e bijou. Pediu que Remilga o aguardasse vestida como as mulheres de lá e, ao anoitecer, Remigio chegou pela porta com com o anel de brilhantes.

A partir desse dia, a relação despejcou. Remilga não tinha superado a surpressa do anel -seus olhos lindos de tão vivos-, quando Pancrácio tirou do bolso um recente modelo de smartphone e disse alegremente que o aparelho reconhecia o dono pelo cheiro, como os cachorros.

Remilga calculou o preço, sentiu ciúmes. Não pensou en nenhuma outra, apenas caiu no sentimento amargo de comprovar que Pancrácio tinha algo diferente, algo que o convertia em outra classe de gente. Nada disse, mas o rapaz percebeu e prometeu que compraria um ‘my dog’ para ela no dia seguinte, que nunca ia abandoná-la, que ia esperar o tempo que fosse necessário para ela superar os traumas e voltar a bater nas portas para ambos poderem se reecontrar no 'paraíso'.

Fonte: jamela e (Flickr)

Remilga se matriculou numa academia, fez curso de marketing pessoal, contratou um coach budista e nenhuma porta se abriu. Pancrácio passou a andar suspeito. Furtava-se como se estivesse devendo algo, culpava o excesso de trabalho. Pedia para ela não usar tanto os vestidoque ele trazia desde o outro lado. Dizia que não adianatava. Que não adiantava o quê?

Um dia casou-se com a filha de um vampiro neoliberal e nunca mais foi visto.

Remilga, ao contrário do que todos pensaram, redobrou o training e voltou a bater nas portas. Queria chegar na casa de Pancrácio -por mais que vivesse protegido por um exércitoem algum bairro blindado- para lhe jogar na cara uma frase curta que se repetia constantemente e que mudava com frequência.

Nunca o conseguiu, mas adquiriu uma boa forma física e aprendeu, com os budistas, a viver na base do desapego. Ainda, conheceu um cínico da resistência antivampírica que lhe explicou, como se fosse uma menina do jardim, a grande mentira das portas. Passavam cinco a cada dez anos. Era nada. Pareciam muitos porque os vampiros, com sua propaganda, multiplicavam esses poucos casos por milhões.

-Grande azar o meu -disse Remilga-, o meu amor estar entre os poucos afortunados que...

-O amor morre, mas renace -respondeu o cínico, quenesse mesmo momento começava a deixar-se vencer pelo coração.

Na época,ela andava ainda repetindo-se aquela frase com a qual um dia lhe diria a Pancrácia todas as verdades. Era a única parte do seu espírito que a disciplina e o exercício não tinham ainda curado. Mas, ao mesmo tempo, percebeu que o cínico a acalmava.

Com o tempo se apaixonariam verdadeiramente.

E passariam momentos felizes.