As portas da esperança

No país dos karas havia portas com oportunidades. Os trabalhadores -sênior, especializados ou braçais- só tinham que bater para ser atendidos por entusiásticos agentes do mercado, que premiariam sua inteligência ou talento. O prêmio era um salário que permitia olhar de cima o próprio passado.

Pancrácio e Remilga foram separados pelas portas no momento que mais se amavam. Pancrácio tinha 21 anos, pressão em casa para ser alguém na vida. Foi bater e, na segunda oportunidade, passou. Sempre tinha sido meio palhaço, meio brincalhão, e sua personalidade encaixou perfeitamente numa corporação que vendia entretenimento.

Remilga ficou para trás, bateu em sete portas onde foi ignorada ou desprezada ou, até, assediada sexualmente.

Foto: Cam (Wikipédia)


Pancrácio passou os primeiros meses entrando pela manhã e saindo à tardinha. Remilga o despedia com roupa casual e aguardava-o, ao anoitecer, toda produzida. Ele trazia um bolo com um creme aveludado, que só se conseguia do outro lado da porta; trazia cigarros longos e finos e bebidas gostosas e cativantes. Um dia Pancracio trouxe um conjunto de vestido, sapatos e bijou. Pediu que Remilga aguardasse à tardinha vestida como as mulheres de lá, e chegou com o anel de brilhantes.

Desde esse instante, a relação despencou. Remilga não tinha superado a surpressa do anel -seus olhos lindos de tão vivos-, quando Pancrácio tirou do bolso um smartphone e disse, com orgulho, que o aparelho reconhecia o dono pelo cheiro.

Remilga calculou o preço, sentiu ciúmes. Não pensou en nenhuma rival específica, apenas caiu no sentimento amargo de comprovar que Pancrácio tinha algo diferente. Nada disse, mas o rapaz percebeu e prometeu que compraria um ‘my dog’ para ela, que nunca ia abandoná-la, que ia esperar o tempo que fosse necessário para ela superar os traumas e voltar a bater nas portas para ambos poder reecontrar-se no 'paraíso'.

Fonte: jamela e (Flickr)

Remilga se matriculou numa academia, fez curso de marketing pessoal, contratou um coach budista e nenhuma porta se abriu. Pancrácio passou a andar suspeito. Furtava-se como se estivesse devendo algo, culpava o excesso de trabalho.

Um dia casou-se com a neta de um vampiro neoliberal e nunca mais foi visto.

Remilga, ao contrário do que todos pensaram, redobrou o training e voltou a bater nas portas. Queria chegar na casa de Pancrácio, por mais que vivesse protegido em algum bairro de vampiros, para lhe jogar na cara uma frase curta que se repetia constantemente e que mudava com frequência.

Nunca conseguiu ir para o outro lado, mas adquiriu uma boa forma física e aprendeu, com os budistas, a viver na base do desapego. Ainda, conheceu um cínico da resistência antivampírica que lhe explicou, como se fosse uma menina do jardim, a grande mentira das portas. Passavam cinco a cada dez anos. Era nada. Pareciam muitos porque os vampiros multiplicavam esses poucos casos por milhões com suas propagandas. Ela, como a grande maioria, nunca iria entrar.

-É para 1% da população - terminou ele.

-Grande azar o meu, pelo menos no amor -disse Remilga.

-O amor sempre morre, mas renace -respondeu o cínico, que começava a deixar-se vencer pelo coração.

Ela andava constantemente atrás de algo que lhe acalmasse a raiva e essa frase lhe pareceu mais do que suficiente.

Com o tempo se apaixonariam verdadeiramente.

E passariam momentos felizes.

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