As empresas do últimos tempos

Nas décadas prévias ao final do planeta Terra, surgiram os empreendimentos mais aloucados da história do capitalismo. Um deles foi ‘ultimaviagem.com’, que chegou a dar conta de 66% dos enterros que se realizavam no mundo. Ao abrir sua página web, podíamos ver um planisfério branco crivado com centenas de milhares de pequenos caixões azul claro, que era o ícone da empresa. Clicando em “Nossos Serviços”, acedíamos a diversos modos de velar e enterrar gente, que evidenciavam o caráter ecumênico da companhia e seu profissionalismo. Estavam, entre outros duzentos rituais, o dos chichiques, que comiam os testículos dos triunfadores na beira da cova; ou o dos tontotes, que enterravam seus mortos de ponta cabeça porque moravam numa pequena ilha. Não faltavam, é claro, os modos ocidentais -súditos diretos dos vampiros-, cujos detalhes são do conhecimento de leitor.

Ao clicar em “Quem Somos”, como sempre acontecia com as empresas na Era dos Vampiros, apareciam outras companhias, propriedade de outras companhias, sempre dirigidas por nativos do País dos Caras desde ilhas piratas do Caribe. Em “Missão”, a Última Viagem proclamava seu know how antropológico e seu orgulho por satisfazer clientes através de 205 rituais.

Com o tempo, a empresa absorveria as igrejas e acabando com a religião institucionalizada. Por um preço razoável, a Última Viagem oferecia cerimônias tradicionais e, ao mesmo tempo, muito emocionantes, que faziam da morte um verdadeiro espetáculo para toda a família.

Quando a miséria se alastrou alarmantemente, quando a fome atingiu os bairro bons dos País dos Caras, a empresa fechou.

Outro empreendimento, não pouco engenhosa, foi ‘presa.net’; um aplicativo que estabelecia contato entre quem tinha vontade de urinar ou defecar estando na rua e aqueles que estavam dispostos a emprestar o banheiro por uma quantia quase desprezível.

Devido a miséria, já não havia mais bares nem restaurantes em todo o planeta, (a não ser os clubes onde comiam os vampiros) e os banheiros públicos tinham sido vandalizados. Como quase não havia atividade econômica, a não ser o roubo e incluso o canibalismo, as únicas pessoas que circulavam pelas ruas do planeta eram os poucos agentes que ainda trabalhavam para os vampiros e os policiais que os cuidavam.

Assim, quando estavam apertados, soldados ou agentes abriam um mapa que indicava o banheiro mais próximo e como chegar. Os anfitriões deviam abrir a porta, ser amáveis e sorridentes, manter o banheiro equipado com papel, água e sabão, desodorizar etc. O dono do banheiro ganhava 5% e a Presa o resto. O empreendimento definhou, como tudo, quando o planeta secou.

O último dos estranhos negócios dos últimos tempos de Ocidente foi a “cometudo.com”. Um serviço de entrega de carne de rato desfiada, que os desesperados comiam pensando em codornas. A velocidade de reprodução desses animais e a insuportável miséria que açoitava o mundo faziam de Come Tudo um considerável negócio, o mais lucrativo de sua nefasta era.

Quando o dinheiro circulante terminou de secar, depois de que os vampiros foram morar na Plataforma Espacial com a máquina de pintar dólares, os pais começarm a pagar a carne de rato com seus filhos e os donos da empresa, feitos agora os homens mais poderosos do mundo, aproveitaram para montar uma rede de prostituição infantil que, pouco depois, passaria a ser o primeiro negócio da história entre a Terra e a Plataforma.

Mas pouco faltava para que o planeta parasse para sempre. Um dia os rios ficaram tão espessos que deixaram de correr e a terra ficou escura e rachou de cabo a rabo. Os ratos engaiolados se comeram entre eles e os que cresciam selvagemente, ao redor dos humanos, saíram das tocas para morder os corpos que achavam moribundos à beira dos caminhos.