Arthur Bispo, De Japaratuba à Sapucai

Em dezembro de 1938, aos quase trinta anos, Arthur Bispo do Rosário sente que é transportado por sete anjos. Ele mora no Rio de Janeiro, numa casa onde faz tarefas domésticas. Dominado por tamanha experiência pessoal, apresenta-se ao patrão e diz que tem que ir à Igreja da Candelária porque acaba de receber uma missão. Despois disso, peregrina durante dois dias pela cidade, até que chega ao Mosteiro de São Bento e se apresenta como o novo messias, que vai julgar os vivos e os mortos. Os monges, que já não estão para acreditar nessas coisas, chamam a polícia.

Arthur Bispo é internado numa clínica psiquiátrica. Ele insiste com que tudo é normal, com que ouve as vozes de São José e da Virgem Maria, desde a infância. Os médicos da capital não entendem.

Vinha de Japaratuba. Na sua terra, tinha sido marinheiro e lutador de boxe. Uma vez no Rio, trabalhou numa grande empresa como lavador de bondes, sofreu um acidente de trabalho, caiu nas simpatias do seu advogado, o Dr. Leoni, e terminou morando no fundo da sua casa por vinte e três anos. Ali experimentara a revelação divina.

Agora, na clínica, aproveitava sua experiência como boxeador e ajudava os enfermeiros a controlar os pacientes mais agitados. Às vezes, tinha que bater, mas ele só batia “nos maus que queriam quebrar tudo”.

Não comia carne, evitava arroz, feijão, macarrão; alimentava-se com umas poucas frutas e legumes. Quando percebia que o brote de loucura estava chegando, apresentava-se aos guardas e pedia:

“Me prende porque eu estou me transformando.”

Sabia que em breve seria uma besta solta. Então passava longos períodos trancafiado, que se transformavam nos mais produtivos. Deus tinha pedido para ele reconstruir o mundo. Por isso, durante 51 anos, Arthur Bispo criaria obras usando roupa desfiada, lençóis e cobertores velhos, tênis, galochas, colheres, canecas, cabos de vassoura, ripas de madeira, como se nenhum pedaço pudesse ficar de fora dessa reconstrução.

Funcionários e pacientes, ainda sem compreender, às vezes, a magnitude de seu compromisso, traziam objetos que lhes pareciam inservíveis, para colaborar com o artista, ou também porque ele pagava com café, cigarros ou até com dinheiro.

Os trabalhos de Arthur Bispo do Rosário se popularizariam só depois de sua morte, aos 80 anos, no ano de 1989.

Em 1994, os Paralamas do Sucesso lançariam o disco Severino, o mais ‘difícil’ do grupo, com uma capa inspirada na obra do sergipano; em 1995, parte de sua obra seria apresentada na Bienal de Venécia. Em 2006, seria tema de enredo da Acadêmicos de Niterói.

Em Sergipe, só tem uma escola com seu nome, no bairro de São Conrado, e uma estátua na entrada da sua cidade natal.