Aracaju e sua tragédia central

Atualizado: Jan 29

Fausto Cardoso, desarmado, avança. O soldado do exército brasileiro avisa e, depois, atira. O sergipano cai a uns quantos metros donde hoje se encontra sua estátua. As tropas respondem aos interesses do senador monsenhor Olímpio Campos. Seis meses mais tarde, os filhos de Fausto matam a tiros o ‘mandante’. Os rapazes acertam o prelado em cabeça e ombros. Como em todas as épocas e em todos os lugares, a sociedade aracajuana do início do século XX se dividia entre os que estavam no poder, os que lutavam por estar ali e uma grande maioria que não queriam ou que nem sonhavam com chegar lá. Como se tratava já de uma república, os dois primeiros grupos se disputavam a simpatia dos outros, que votavam. Fausto e Olímpio eram os líderes do andar de cima. Monsenhor agradava os nostálgicos do Império e os senhores de engenho; Fausto, os profissionais liberais e os pequenos proprietários. Assim, finalizada tragicamente sua batalha pessoal, começa a batalha propagandística, pela imposição dos símbolos. Penduram retratos, acunham medalhas comemorativas, broches, gargantilhas.



Mas governava os amigos do finado Olímpio e os ‘faustistas’ eram reprimidos. A autoridade arrancava dos seus corpos os adornos com o retrato de Cardoso e tinha pau para os resistentes. Para 1908, no entanto, os conservadores perdem espaço e a violência cede. Na paz, os seguidores começam a pensar nas estátuas e, assim, encenam uma terceira batalha: a da ‘perpetuação’ do símbolo em espaço público. A empreitada não é barata. Há listas de subscrição. Na de Fausto Cardoso tem operários, padres, dentistas, professores, dez por cento são mulheres. Os aderentes ao monumento de Olímpio reúnem um público mais seleto: desembargadores, juízes, capitães, proprietários rurais.



Os seguidores de Fausto conseguem o dinheiro em onze meses. Os do Olímpio têm mais dificuldades. Para quando o escultor carioca termina a estátua do monsenhor, só tem a terceira parte do montante acertado. O artista não entrega a peça. Entretanto, em 1912, os rivais faustinos erguem a estátua de seu patrono olhando para o rio Sergipe. Desesperados, os coronéis olimpistas tentam jogar os custos da estátua de monsenhor nas costas do Estado. Mas, a essa altura, o grupo já não tem a eficácia de outrora para aceder alegremente ao tesouro público. No final, quando a facção dos ricos consegue juntar o dinheiro, o espaço que mira ao rio está ocupado e tem nome: praça Fausto Cardoso. A estátua do Olímpio tem que ir um pouco mais para trás, tem que retroceder até a praça da catedral.


Fonte: Batalhas da Memória Polítca em Sergipe, de Giliard da Silva Prado.

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