A Saga Heroica do Cacique Serigy

Nos idos de 1534, o Rei de Portugal Dom João III desmembra um pedaço da capitania da Bahia, que se estendia em distância, em quase 50 léguas do rio São Francisco até a ponta da Bahia de todos os Santos, nesta área que à época separava a Bahia de Pernambuco, viviam fartamente espalhados uma grande variedade de tribos indígenas estabelecidas, eram Karapatós, Caetés, Kariris, Boimés, Tupinambás, Natus dentre tantos outros no território que um dia viria chamar-se primeiro Sergipe Del Rey e posteriormente sagrado como Sergipe. De tantas quantas perguntas se fez ao longo do tempo, a respeito da origem de nome tal nome, sabe-se provindo de Serigy, um destemido e articulado líder tribal, que uniu diversas tribos da sua região na resistência contra a chegada do dito progresso da coroa portuguesa, que ameaçava com mortes, estupros e escravidão, a pacata e simbiótica relação dos autóctones com a terra das araras.



Índios soldados da província de Curitiba escoltando prisioneiros nativos

Jean-Baptiste Debret


O estopim da rusga entre a coroa portuguesa com os índios destas terras, acende quando em 1556, Dom Pero Fernandes Sardinha, Bispo do Brasil, de partida para Portugal, é interpelado por índios caetés nas águas do rio São Francisco, e ao que se sabe devorados em rituais antropofágicos, nos quais os caetés visavam absorver a força de seus inimigos, ingerindo seus corpos depois de cosê-los às dezenas em ardentes fogueiras. Era o início de uma laboriosa briga entre Portugal e os povos indígenas que viviam ali arraigados firmemente à terra que lhes dava o sustento, o que demandou uma represália sangrenta da coroa por pouco mais que meia década, abatendo não apenas índios caetés responsáveis pelo assassinato do Bispo canibalizado, mas todo e qualquer índio que topasse com a tropa portuguesa sedenta por vingança, e assim mataram muitos, e tal rastro sangrento gerou uma forte ojeriza e desconfiança dos índios destas bandas.



Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500

Oscar Pereira da Silva


Nas brumas das matas sergipenses e por entre os manguezais do rio Sergipe, vivia o líder tupinambá que entraria para história como herói nacional. Devido a sua enorme articulação política, era capaz de reunir sob suas orientações, milhares de índios nas linhas de frente dum volumoso exército. Na contramão do usual, o cacique conseguiu manter seus domínios não apenas com arcos, flechas e tacapes, mas também com engenhosos arcabuzes que comerciava com piratas franceses em troca de pau brasil e tantas outras matérias primas que abundavam na terra brasilis. Desta feita treinara o seu poderoso exército de índios corajosos, a manejar armas de fogo, e a manter calmos os ânimos ante a fumaça de pólvora que emanava das explosões bélicas quando em confronto com os portugueses, que insistiam em fundar uma cidade nas terras de Serigy e seus irmãos.

A contar de 1560, Serigy resistiu bravamente por três décadas, unindo diversas tribos, brandindo a liberdade como causa maior de sua luta, modernizando suas frontes de batalha com armas de fogo, e mesmo em desvantagem bélica, ante o retumbar dos canhões, teve na força da estratégia e política liderança a vantagem que susteve tantos anos de resiliência.

Somente em 1590, com a vinda de um ressentido personagem português, Cristóvão de Barros, afamado pelo título de matador de índios, filho de Manoel de Barros, figura portuguesa importante e de numerosas fidalguias, que havia sido devorado junto a Dom Pero Fernandes Sardinhas a décadas pelos Caetés nas margens do São Francisco, foi que mudou o rumo das batalhas com o Cacique Serigy e seus aliados, pois Cristóvão aporta o litoral sergipano com uma armada portuguesa munida de estrondosos canhões, e numerosa artilharia, e após um mês fustigante guerra, as hostes portuguesas logram vencer a colossal bravura das tribos lideradas por Serigy, que encurralado se rende, para evitar ainda mais mortes.



Guerrilhas

Johann Moritz Rugendas


Quando levado para a Bahia e morre por inanição ao se recusar a comer e a obedecer ordens, mas não sem antes rogar uma praga aos colonizadores, a maldição de que aquelas terras a sangue conquistadas jamais teriam dono, de que nada empreendido ali daria certo, e como uma corda de caranguejo em que um cai na panela, e todos demais caem junto puxados pela corda, assim também quem se aventurasse a empreender naquelas terras não só cairia em desgraça como também levaria junto a pique, quem se associasse nessa empresa, terminaria arrastado para um trágico e infrutífero destino. Que assim o foi, pois, nem Cristovão de Barros, que fundou a cidade de São Cristovão, e logo depois retorna para Portugal definitivamente, aproveitou a terra que obteve nem seus descendentes conseguiram possuir a terra, pois se viram em tantas dificuldades que terminaram por desistir.

O cacique, por fim, símbolo da bravura indomável do povo sergipano, restaria eternizado na lembrança de seus descendentes como exemplo de luta e resistência, ganhando menção no rol dos heróis da nação.


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