A ciência do amor

Atualizado: Jul 14

Os vampiros neoliberais sugavam dinheiro até enquanto dormiam. O dinheiro, para eles, era como para o ar para nós. Nas propagandas que circulavam para enganar os pobres trabalhadores, quem era capaz de construir uma mesa era bom, quem conseguia vender a mesa era melhor, mas quem chegava a vender o serrim que sobrava era excelente.

Assim, os gênios da ciência e das artes já não eram os que alongavam a vida nem os que a faziam mais gostosa, senão os que nas intrincadas minúcias da natureza e do comportamento humano descobriam modos para os vampiros continuarem respirando dinheiro.

Por isso a ciência se dividia entre os que esquadrinhavam a natureza à procura de modos de aumentar a potência dos veículos, a velocidade das correntes elétricas e a capacidade de acumulação de dados e as possibilidades da biotecnologia, e os que observavam os costumes, para indicar ‘trends’ que permitissem criar modas e entretenimentos massivos. Se alguém queria saber alguma coisa além disso, tinha que chegar até os escritos dos pensadores sensíveis, que circulavam em xerox, de mão em mão, e ninguém lia.

Os estudiosos dos costumes moravam nas cidades, eram mundanos, gostavam da noite e dos drinques. Faziam pequenas descobertas com bastante frequência e permitiam que os vampiros fizessem grandes negócios impondo - por exemplo, para um mês de janeiro - meias cor laranja para o inverno do Norte e bonés em cores pastéis para o verão do Sul. Os pesquisadores da natureza, ao contrário, vivam nos lugares mais inóspitos e produziam resultados com pouquíssima frequência, passavam às vezes anos sem elaborar um relatório promissor. Contudo, quando descobriam algo, o negócio era grande. Um par de vezes por século, chegavam até a produzir mudanças nos paradigmas produtivos. Nessas ocasiões, os vampiros se empanturravam de dinheiro e, incluso, sofriam mutações genéticas.

Pam e Kagawa eram cientistas da natureza. Viram-se pela primeira vez no deserto de Judeia. Ela estudava areias, na procura de um composto para fabricar folhas de vidro indestrutíveis. Ele estudava um pássaro que emitia no cio um líquido que, se pensava, poderia curar a adição ao sexo, a principal ansiedade universal daqueles tempos e o pior inimigo do rendimento no trabalho.

Pam e Kagawa se olharam, amaram-se, mas no primeiro dia nem conversaram.

A ciência era a vida, para ambos; enquanto observavam, mediam e imaginavam combinações, viviam. No resto de seu tempo, descansavam minimamente para voltar de novo ao mundo da pesquisa. Eram obsessivos, eram virgens.

No dia de réveillon, em Abu Durbah, encontraram-se pela segunda vez. Tomaram uma taça de vinho, a única que os dois tinham bebido nesse ano que terminava. Interessaram-se mutua e sinceramente por suas investigações. Descobriram outra meia dúzia de coincidências, sem abordar ainda questões íntimas.

Como nunca nenhum dos dois tivera um relacionamento, nenhum dos dois tomava a iniciativa. Contudo, procuraram outro lugar onde houvesse areia e o pássaro que Kagawa estudava para continuar juntos. Fizeram seus relatórios, solicitaram novos orçamentos e foram para Indonésia, separados, como se não se conhecessem. Ambos estavam felizes como nunca na vida, mas não entendiam por quê. Eles nunca tinham sentido jamais nenhuma satisfação que não proviesse da ciência.

Não se sabe qual dos dois fez a proposta. Estavam a três horas e meia de avião de Bangkok. Podiam passar um final de semana descansando. Desviariam dinheiro da pesquisa, mas ninguém descobriria. Era a primeira vez que mentiam.

Assim que entraram no hotel, rolou o primeiro beijo. No quarto dela, tiveram a primeira relação sexual de suas vidas. Na capital asiática do sexo, passaram 48 horas sem sair do quarto. Ao voltar a Indonésia lavaram o dinheiro gasto na viagem com maracutaias contábeis, fizeram os relatórios e partiram para o seguinte destino. Dessa vez, não resultou tão fácil fazer coincidir os objetivos científicos com os eróticos. Mas os estudiosos da natureza gozavam de uma certa liberdade e Kagawa mudou de pássaro porque areia havia em qualquer lugar do mundo.

Então, passaram os seguintes dez anos, ensamblando-se na harmonia dos gozos, vendo que tudo que tinham procurado ao longo desses vinte anos de pesquisa estava dentro deles, nessa região tão desconsiderada pela moral como eram os genitais.

Um dia, os fiscais dos vampiros caíram em cima deles. Tinham percorrido trinta e três praias, nenhum deserto, vinte e dois relatórios de pássaros irrelevantes, vídeos de hotéis, casinos, discotecas, carnavais. Foram detidos em Marbella, estavam bêbados ou drogados. De acordo com o relatório, ela se propunha estudar rocas e ele formigas. Embriagados pelo amor e pelos licores sonhavam com viagens de manhã de tarde e de noite e seus projetos eram cada vez mais incoerentes.

Pam e Kagagua foram castigados com severidade. Perderam o emprego e o direito a uma aposentadoria digna. Foram crucificados pelos jornalistas caguetes dos vampiros e obrigados a emigrar ao Cone Sul. Terminaram morando em um trailer, deprimidos, e engordaram de tanto comer salsichas.

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